Fátima Eugenia Cardoso Moraes

VIDA DE PROTETOR

Fatima Eugenia Cardoso Moraes
Protetora autônoma
Rio de Janeiro – Rio de Janeiro
Enviado em 15 de maio de 2011

Eu nasci protetora porque, tanto meu pai quanto minha mãe, adoravam animais. O meu pai tinha uma loja em Laranjeiras. Quando ele voltava do trabalho, o que ele visse de animal abandonado pelo caminho ele levava para casa para cuidar. Se fosse caso de levar ao veterinário, ele levava. Meu pai levava tudo – cachorro, gato, coruja, tudo que ele visse que estava caído, machucado. Ele levava e depois conseguia doar. A madrinha do meu irmão era protetora também – Dahyl – e amiga da Lya Cavalcanti. Tinham vários animais que sustentavam. Como eu morava em Santa Tereza, eu subia o Morro dos Prazeres para ver se tinha algum animal machucado, abandonado. Eu tinha 12 anos quando comecei a subir o morro para ajudar os animais. Eu era conhecida como a “menina dos cachorros”. Eu ia subindo e as pessoas iam avisando – “olha a menina dos cachorros!” Eu recolhia os animais que precisavam, descia o morro, o animal era tratado e voltava para o dono na favela. Eu ficava muito feliz de devolver aos donos o animal tratado. Se o animal não era querido pelo dono, ia para um abrigo. As pessoas vinham com os bichos para levar para o carro que estava esperando para socorrer. Teve um dia que eu desci com um porco machucado, dois gatos e um cachorro para levar ao veterinário. E ninguém brigou dentro do carro.  A vida toda eu fiz alguma coisa em prol dos animais. Se, indo para o trabalho, acontecesse alguma coisa pelo caminho com algum animal, meus chefes já sabiam que eu ia resolver.

Fui para São Paulo. Fiquei 20 anos em São Paulo, onde não havia, naquela época, nenhuma estrutura. O que eu fazia era tentar resolver os problemas da rua – animal com fome, com sede. Tinha bicho abandonado, eu procurava alguém para ficar com ele, porque eu morava num apartamento. Tentava um dono através de vizinhos, colegas. Não existia ainda a internet. Colocava ele em algum lugar que achasse seguro. Morava com uma amiga que estava doente, em depressão, quando eu achei um cachorro na rua que chamei de Fiapo. Quando eu o levei para casa, ela falou que era o maior presente que alguém podia dar para ela. Ela botou ele na cama, levantou, pegou ele e me pediu que o levasse ao veterinário. Ele salvou a vida dela, foi ele que tirou ela da cama. Eu voltei para o Rio em 7 meses, brigando com o condomínio, porque era proibido ter animais nos apartamentos.

Me aposentei, voltei para o Rio e fui a SUIPA ver o que podia fazer. Comecei a me relacionar com as pessoas, participar de reuniões e aí comecei a atuar aqui onde eu moro. As pessoas largavam os animais pelas ruas e eu comecei a recolher. Conheci uma senhora que tinha uma casa grande, comecei a dar ração para ela e ela deixava eu colocar os animais lá. Conheci a Ângela. Ela me ligou, dizendo que queria ajudar, e é ela quem me ajuda até hoje. E foi aumentando o número de pessoas que eu conheci. A minha intenção, quando cheguei ao Rio, era lutar pelas leis. Hoje eu continuo com os cães que recolhi, dou ração para quem não tem condições, castro os animais de quem também não tem condições. Quando alguém bate à minha porta porque perdeu um animal, eu espalho cartazes para tentar encontrar. Atualmente meu desejo é fazer um site para cães perdidos. Não perdi a esperança. Assim que minha situação financeira estabilizar, eu pretendo fazer curso de direito. É uma forma de ajudar, assim eu não vou depender de ninguém para poder agir. É uma possibilidade de fazer mais. Quem morou em Santa Tereza, conviveu com a natureza. Ninguém matava uma cobra coral. A gente se afastava dela e a deixava seguir o caminho. Era uma coisa interessante isso. Mas acho que a maior influência mesmo é dos pais. E foi o que aconteceu comigo.