Virgínia Abreu de Paula

SALVEI UM ANIMAL

Instituto Vida Animal – IVA
Montes Claros – Minas Gerais
Relato: 08 de dezembro de 2010

Dia de finados, 2010. Chovendo a cântaros e eu triste por não poder ir ao cemitério, debaixo de tal temporal. Estou esperando por uma estiagem, quando o telefone toca.  Uma companheira protetora de animais, ao passar por uma praça perto de minha residência, tinha visto um cãozinho tiritando de frio, ensopado com a água da chuva. Conversando com vizinhos, soube que ele estava ali há três dias, sempre tomando as chuvaradas. 

Esse é o tipo de telefonema que me dói. Saber que um bichinho, perto de mim, sofre tanto… E sem poder ajudar. Nossa ONG, até hoje, mesmo tendo sido fundada em 1987, não tem nem mesmo um recanto para abrigar os casos urgentes.  Como socorrer o animal? Lembro de uma antiga associada do IVA que estava planejando um abrigo. Ligo para ela. Era verdade, mas não estava pronto. Faltava o teto. Logo o teto! Com chuva, não adiantaria.

Pouco depois, vem novo telefonema. “Será que você não pode socorrer o cachorrinho? Ele nem fica em pé. Levanta e cai.” Com a chuva mais fraca, vou até lá sem saber ao certo o que fazer. Já o encontro sob uma marquise. E vejo um prato de papelão a seu lado. Chega uma senhora dizendo que o colocou ali, um pouco mais protegido da chuva. E tinha levado a comida. “Mas não posso ficar com ele. Moro em apartamento.” Ah, os tais apartamentos… Vejo que seu olho esquerdo está com conjuntivite. Corpo quente. Febre. Sem dúvida, não podia ficar ali.  Meu Deus, o que fazer?

Volto para casa e começo a tentativa de achar um veterinário num feriado. Não consigo. Ligo para outra protetora. Quem sabe teria o celular de algum deles? Não tinha. Mas, me fornece o telefone de um  jovem meio para veterinário. “Sabe dar primeiros socorros, tem carro para transportar animais, pode ser útil.” Disse ela. De fato, o tal rapaz caiu do céu. É ele quem o trás até minha casa, pois tem luvas, transportador e muito carinho para dar aos bichinhos. É ele quem lhe dá o remédio para baixar a febre, limpa seu olhinho com água boricada, e ajuda-me  no preparo de uma caminha improvisada. Por incrível que pareça, o cãozinho não aceita  a caixa. É de rua mesmo. Prefere o chão liso, que cubro com jornais.  Ele se enrosca e… dorme. Olho o relógio. 18h e 30 minutos. Bem que a chuva tinha parado, mas… o cemitério já estava fechado. Então, ofereço a meus antepassados, o resgate do cachorrinho, no lugar da visita anual a um lugar onde não se encontram.  Sei que aceitaram. Passa a noite  convivendo pacificamente com os 13 gatinhos que moram comigo. Já a minha  cachorra é mantida à distância, para a sua segurança, pois há sintomas de cinomose.   

Dia seguinte, segue para uma clínica veterinária onde se interna. A primeira notícia me apavora. Suspeita de Leishmaniose. Coloco todos os santos e até o meu pai falecido cuidando do cachorrinho. É com gratidão que informo: o exame veio negativo. Mas, ele tem baixa imunidade.  Carece de tratamento sério.  Vejo então ser impossível procurar quem o adote, sendo que não está com saúde. E agora?  Não há outro jeito. 

Pablo ao chegar, antes de iniciar o tratamento.

Uma semana depois, eu o recebo já devidamente adotado… por mim.  O funcionário da clínica abre a porta de transportador.  De lá sai um cachorro bem diferente. Sorridente! Olha para um lado e para o outro e dispara a correr. Cheira todos os cantos, todas as flores, todos os troncos. Então, vê um dos gatos. Dilata as ventas. Parece dizer: “Nossa, estou no paraíso. Tem até gatos para eu correr atrás.”  Eu  fico apavorada.  O bichinho não me atende. Os gatos se espalham, sobem nas árvores, sem entender nada. Ele faz uma pausa para fazer cocô. E continua.  Impossível não rir… Mas, vem a preocupação. Continuando assim, como ficar com ele?

Pablo já recuperado

Hoje, mais de um mês depois, ele está se acostumando com os gatos. Por via das dúvidas, fica num ponto do quintal onde há mais segurança. Mas, de vez em quando, entra na casa sem perseguir os bichanos.  Preocupo-me apenas com a Bianca, que mudou-se para uma casa vazia da vizinhança, com receio dele.   Durante alguns dias ignorava  onde ela andava. Agora, pelo menos sei de seu paradeiro. Dela e…. seus três filhotes que eu desconhecia!  Vou lá todos os dias  levar a ração. Acredito que esse problema será resolvido.  O recanto do menino é na lavanderia, por falta de lugar melhor. Já  aceita a caixinha com cobertinhas quentes. E tem nome: Pablo. Chamado também de Pablito.  Tem até tema musical! Curiosamente, é só começar a cantar as primeiras notas…. “Meu nome é Pablo”…ele começa a pular. Está sempre com um enorme sorriso estampado na carinha linda. Sempre, ao me ver, vem correndo lamber minhas mãos.  Minha cachorra já se aproxima dele, pois não sofre de nada contagioso. Ela está visivelmente feliz por ter uma companhia canina. São essas coisas que mostram que, apesar de todo o aperto que passamos, todo o medo, todos os problemas que enfrentamos, vale a pena sair da posição acomodada e levar o socorro. Afinal de contas, como diz o Talmude, “Quem salva uma vida, salva o mundo inteiro.”

 

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