Sabine Sanara Fontana

SALVEI UM ANIMAL

Sabine Sanara Fontana
Ativista pelos direitos dos animais
Florianópolis – SC
Relato: 09 de agosto de 2011

O COELHO MAIS LINDO DO MUNDO NÃO ESTÁ MAIS ENTRE NÓS …

Flopinho – o coelho que mudou a minha vida.

Ele veio para mim em 30 de agosto de 2006… Na época eu não tinha a consciência que tenho hoje de que animais não devem ser comprados. Mas não o comprei… Ele me foi dado de presente. Eu e meu esposo passeávamos no Mercado Público em Florianópolis, quando ele avistou coelhinhos numa gaiola e, com pena, quis “salvar” um deles e dar-lhe a devida liberdade *. O rapaz abriu a portinha e um daqueles 8 coelhos veio até mim… Estendi a mão e ele subiu, todo curioso. Foi ele quem me escolheu. E quem disse que ele queria sair do calor e aconchego das minhas mãos?

Saímos da loja felizes e contentes e quando me perguntou que nome eu iria dar a ele, na hora me veio um nome, como se já pertencesse a ele: “Flopinho”.

Mãe de coelho de primeira viagem, só lhe dei cenoura e ração na primeira semana, conforme orientação totalmente equivocada do vendedor. Quando pesquisei na internet, percebi que coelhos comem muito mais do que isso e, para compensar essa falha, comecei a dar-lhe tudo o que ele tinha direito e com fartura. Descobri com o tempo que o que ele mais gostava era maçã, pêra, banana, mamão, radiche e folha de brócolis. Sua dieta virou até motivo de briga entre eu e outras pessoas, que achavam que eu exagerava…

Por dois anos o levei comigo ao trabalho… E era um trabalho tentar pegá-lo de manhã para colocar na caixinha de transporte. Ele já sabia e quando me via saía correndo para longe de mim, geralmente para trás do sofá da sala. Me dava um baile o danadinho. E quando eu chegava na empresa, seu lugar preferido era atrás da mesinha da CPU. Claro que roeu todos os fios que podia roer… Além disso, às vezes não me deixava trabalhar direito pois me pedia colo a todo momento.

Por causa dele também acabei brigando com alguns clientes e fornecedores que, quando percebiam que havia um coelho na sala, acabavam mexendo com meu orgulho de mãe afirmando que ele “daria um bom ensopado…”. Esse tipo de comentário, totalmente inconveniente e insensível, me deixava furiosa.

Foi na empresa que o Flopinho conheceu sua primeira namorada, a Babalu, em novembro de 2007. Proibida por um órgão estadual de ter os coelhos comigo no local, a Babalu acabou indo pra casa de uma ex-funcionária e comecei a deixar o Flopinhoem casa. Aseparação me causou grande tristeza no início e era muito difícil fechar a porta de casa tendo que deixá-lo sozinho durante o dia.

Em casa o Flopinho era meu grande companheiro… sempre comigo na sala de TV, na cozinha, ou ainda se aconchegando comigo na cama para dormir. Muito doce, muito meigo, muito dengoso. Foi muito mimado. E que agonia era pra mim ter que deixá-lo quando tinha que viajar. Eu chorava como uma criança, largava as malas na porta e corria de volta para abraçá-lo, beijá-lo, apertá-lo…

O Flopinho também entendia português… bastava chamá-lo numa sala que ele vinha da outra correndo… Corria saltitante pela casa quando eu resolvia brincar com ele, correndo atrás… Ele pulava no ar, chacoalhava o rabinho e balançava as orelhas, feliz da vida… Dormia nos meus braços como uma criança, deixando as patinhas totalmente relaxadas. Um sinal de que se sentia totalmente seguro comigo. Viajou comigo para Gramado, Chapecó e São Miguel do Oeste várias vezes.

Em 2010, conheceu a Genevive e teve com ela três filhos lindos: Giordy, Ollie e Bandidinha. Daí conheceu a Aysha no início deste ano e esqueceu a Genevive. E a Aysha se tornou sua fiel e constante companheira. Onde um estava, o outro aparecia e vice-versa. Sempre juntinhos.

Por causa dele, me tornei vegana e ativista pelos direitos animais. Por causa dele, comecei a cuidar de coelhos descartados e abandonados de Florianópolis, encaminhando-os a novos lares ou então, quando não adotados, ficando responsável por eles num parque e num bosque da cidade. Por causa dele, tenho outros 8 coelhos aquiem casa… Semfalar no Lyon, que partiu em fevereiro.

Sempre torci para que esse dia nunca chegasse… mas infelizmente ele chegou… De uns dias pra cá, percebi que o Flopinho tinha perdido peso, mas achava que era devido à sua idade… E ele nunca foi um coelho obeso, apesar da alimentação rica e variada. Sempre pesou entre 3,6 e4 kg. Ontem ele deu apenas umas leves mordidas nas frutas e nem quis saber da ração…

Quando se levantou e cambaleou duas vezes, vi que alguma coisa estava errada. Levei-o à tarde ao veterinário e imediatamente foi colocado no soro… Minha agonia começou ali. Seu corpinho estava fraco, seu apetite nulo, seu olhar parado… não quis deixá-lo internado com medo que ele morresse sozinho, sem meus braços para aquecê-lo e confortá-lo. Trouxe-o para casa, com alguma esperança de recuperação. Passou a noite toda em meus braços, dormindo feito um anjinho, avisando-me apenas nos momentos que precisava fazer xixi. Me levantei às 7 da manhã e ele ainda estava respirando, mas com muita dificuldade e o corpo todo mole… Voltei pro quarto, ele começou a emitir um som pela boquinha, como se engasgando, e não deu nem 10 segundos… soltou um leve grito, jogou a cabecinha pra trás… e saiu voando. Meu Flopinho agora é um anjo, o anjo mais lindo de todos, mais precioso, mais espetacular de todo o universo… O coelho que me escolheu, me amou e que foi muito, mas muito amado… Que me mostrou um outro mundo, mudou minha rotina e que salvou tantos outros coelhos só por ter existido.

Flopinho, meu tesouro… Não sei como vão ser meus dias sem te ver no teu cantinho ao lado do sofá ou parado na frente da porta de vidro esperando eu abri-la pra você entrar e fazer bagunça… Eu tenho medo do que vou sentir amanhã, quando nunca mais vou poder te ver como estou vendo agora, inerte no meu colo, sereno, como se dormindo… Eu sempre te proibi morrer cedo, mas você não me obedeceu. Sempre dizia a todos que você ia viver 20 anos… e viveu apenas 5, mas tempo suficiente para ter-me dado muita felicidade e a certeza que não vou parar de pensar em você um instante sequer pelo resto de minha vida… Meu coração parece que vai explodir de dor e tristeza porque não sei como vou suportar tua ausência na minha vida. Tudo parece que perdeu o sentido, inclusive minha existência. Eu queria tanto poder voltar no tempo e viver contigo todos os 5 anos que vivemos… Eu daria tudo o que tenho pra ter você de volta.

Flopinho… agora você é um anjo… e espero que, como um anjo, saiba iluminar a mente de cada homem que explora, maltrata, confina, engaiola e mata seus irmãos e outros animais que não têm ou não tiveram a mesma sorte que você. Espero que sua luz, sua imagem, sua existência sirva para mostrar ao ser humano que os animais merecem a vida que você teve, com muita liberdade, respeito, amor, afeto, carinho… Que você possa ensinar aos homens que animais não são objetos, mercadorias e nem foram “feitos para isso mesmo” (para virarem comida, casacos de pele, amuletos, brinquedos para diversão de sádicos, cobaias em experimentos pseudocientíficos…). Mas que os animais são seres vivos e, como tais, merecem viver assim como cada um de nós. Como você pôde viver.

Não vou te dizer adeus, Flopinho… Apenas um até logo… porque um dia vou te encontrar nos campos verdejantes do céu, saltitando com todos os teus amigos que também já se foram, e vou poder te pegar no colo, te acariciar, te beijar, e, batendo minhas mãos, sair correndo atrás de você dizendo: “Vou te pegar, vou te pegar, vou pegar esse coelhinho…”

Com amor

Mamãe

* Quando compramos um coelho, logo em seguida colocam outro no lugar… Então é ingenuidade achar que estamos salvando-o: estamos apenas condenando outros, principalmente as fêmeas desses criadores de fundo de quintal que, engaioladas eternamente, são constantemente submetidas a uma gravidez forçada, tendo seus filhotes arrancados de seus seios, na maioria das vezes, antes de atingir 6 semanas de vida, tempo necessário para que os orelhudinhos adquiram imunidade transmitida pelo leite materno, muito nutritivo.