Patricia Österreicher

SALVEI UM ANIMAL

Patricia Õsterreicher
Rio de Janeiro
Relato: 29 de julho de 2011

Temos tido, em nossas vidas, esses companheiros que a ocupam quase toda e aos quais pertencemos, meus dois filhos e eu, totalmente. Um deles é o Minou, um dos animais que me orgulho de ter resgatado para uma vida melhor. Nasceu em condições desconhecidas, talvez em algum lugar nas proximidades da Ilha do Fundão, onde foi achado. Na época eu fazia minha tese na UFRJ, onde formávamos um grupo de defensores, entre alunos, professores e funcionários, que cuidávamos de gatos e cachorros que por lá apareciam. Um membro extremamente importante desse grupo era “Seu” Maciel, senhor já de certa idade responsável pelo estacionamento do Instituto de Microbiologia. “Seu” Maciel era um apaixonado pelos animais, o que facilitava muito nossa atuação, já que podíamos contar com ele para abrigar nossos protegidos, os quais passavam a “morar” na área do estacionamento – lugar quase bucólico, com grama e árvores e muita calma. Nem sempre podíamos impedir a ação dos gambás, que vez por outra, como é o seu direito, comiam algum animal menor ou mais jovem, mas das pessoas mal-intencionadas eles estavam resguardados. Assim apareceu um gatinho morto um dia, e “Seu” Maciel, entristecido, foi buscar uma pá para enterrá-lo quando – surpresa! – ao pegar o bichinho, viu que estava vivo. E mandou-me um recado pelo nosso técnico, a respeito do gatinho quase morto que havia resgatado. Claro…

Tínhamos perdido nossa companheira felina de tantos anos havia apenas umas semanas, o primeiro contato de meus filhos, ainda crianças, com a morte de um ser querido – tão querido… Estávamos de luto, e muito, muito tristes. E com viagem de férias marcada para dali a um mês. Mas é lógico que o gatinho foi comigo para casa naquele final de semana, “só até ele ficar bom”; depois deveria voltar ao nosso abrigo no estacionamento do IMPPG. E é lógico que conosco ele ficou, trazendo alegria à nossa casa novamente. Somos desses humanos que só se sentem íntegros quando pertencem a, pelo menos, um não-humano…

Chegamos a pensar que era mudo, miava sem produzir som, mas descobrimos que era um resfriado evoluído em pneumonia. Uma veterinária que trabalhava no bloco ao lado, no Instituto de Farmácia, procurou aflita pela pessoa que tinha levado o gatinho, e, quando me localizou, me deu remédios para medicá-lo e ele se recuperou rapidamente. Abençoada seja…

Minou é um gato grande e forte, temperamental e muito ciumento. Quando meus filhos sentavam ao meu lado ou – intolerável!! – no meu colo, ele chegava de mansinho e ia pouco a pouco expulsando o intruso para apoderar-se de sua humana.

Alguns anos depois, levamos para casa uma companheira para ele, a Pivoine, trazida da roça de Miguel Pereira, uma gatinha ruiva muito meiga e muito linda. Sua relação com a Pivoine foi conturbada no início, pois ele tinha muitos ciúmes e não tolerava que lhe déssemos qualquer tipo de afeto ou sequer atenção. Com o tempo foi entendendo o que o amor nunca se divide, mas só se multiplica, conceito que sempre me esforçara em passar aos meus filhos, e que ele também aceitou com o tempo. Mesmo se, ainda hoje, tem surtos de ciúme e ataca a pobre Pivoine (chamamos sua atenção com muita severidade nesses casos, e ele não gosta nem um pouco!).

Os anos foram passando, as crianças cresceram e meus filhos foram estudar fora. Foi muito difícil, principalmente nos primeiros anos em que eu ficava constantemente indo e vindo e os gatos ficavam sozinhos por semanas, só recebendo uma visita diária. Toda vez que pegava minha mala, o Minou sentava dentro e não me deixava colocar as roupas, dando-me tapas quando eu me aproximava e resmungando baixinho… Com os anos eles se acostumaram, e eu passei a viajar menos e ficar mais tempo em casa, mas meus filhos são sempre as visitas mais esperadas do ano, e, quando chegam, é uma festa felina.

Como vejo frequentemente nas histórias desse tipo, posso dizer, eu também, que, ao salvar o Minou, fomos nós os maiores beneficiados. E as pessoas agregadas ao longo do tempo nessa paixão, meu companheiro, meu irmão, alguns amigos, amigos e namorados dos meus filhos. E no exemplo que levou essas pessoas também, por sua vez, a incluir um companheiro de quatro patas – ou vários – em suas vidas.

Quando o vejo angustiado, às vezes, sem razão aparente, miando naquele tom profundo, fico imaginando que circunstâncias traumáticas podem tê-lo levado a ser quase enterrado naquele estacionamento, já tomado pela pneumonia, lembranças que, agora, ainda o assombram na velhice. A Pivoine nunca mia nesse tom, nascida e criada pela mãe e muitas tias, no meio de irmãos e primos, e depois levada para nossa casa para ser amada. E pondero sobre o destino que fez com que terminássemos todos juntos….