Mariângela Freitas de Almeida e Souza

SALVEI UM ANIMAL

Rio de Janeiro, RJ – Brasil
Relato: 06 de março de 2005

“De todos os animais que já resgatei, esse foi o caso mais dramático. Dei a ele o nome de Leonardo. Era um gato grande, amarelo, muito manso e carinhoso. Qualquer um que o visse, logo se apaixonava pelo seu jeito dócil e brincalhão. Inacreditável que tenha vivido uma história tão cruel e, ainda assim, se mantido confiante nas pessoas.

Costumava chegar em casa, após o trabalho, por volta das 17 horas quando o porteiro do meu prédio me entregou uma caixa e, dentro dela, aquele que eu passei a chamar de Leonardo. No início daquela tarde, em seu posto em frente ao prédio, chamou a atenção do porteiro um homem que seguia pela calçada, em direção à praia, puxando um gato adulto por uma corda atada ao seu pescoço. De longe parecia que o animal estava morto pois não se percebia qualquer reação. Era uma cena muito estranha. Ao se aproximar, ele viu, horrorizado, o gato levantar, com esforço, a cabeça e gemer baixinho. Ele parou o homem e perguntou: “Onde você vai com esse gato?” O homem, que parecia drogado, respondeu: “Vou dar um banho de mar nele!”. Começou uma discussão entre os dois e logo juntou gente em volta. Resultado: o homem teve que fugir da multidão, que queria lhe dar uma boa surra, e o gato foi colocado numa caixa e entregue a mim algumas horas mais tarde.

Sua mandíbula estava fraturada em dois locais, transversalmente e numa ferida longa, de modo que, quando ele levantava a cabeça, a boca se dividia em três partes. O braço direito tinha uma fratura antiga e já consolidada – ele não sentia mais dor mas tinha perdido o movimento e a sensibilidade daquele membro: ao andar, a mão curvava para dentro e arrastava ao chão. Tinha hematomas e feridas por todo o corpo e estava muito, muito magro, com o esqueleto todo à mostra. Chamava a atenção o formato da maioria das feridas – bem redondinhas, como marcas de queimadura de cigarro. À volta do pescoço, uma cicatriz profunda, deixada pela corda apertada, onde nunca mais cresceu o pelo. E, inacreditável, sua língua estava partida ao meio, na transversal, ainda presa por uma pontinha numa das laterais. Aquele gato maravilhoso tinha sido torturado por aquele homem não se sabe por quanto tempo nem onde.

Aconcheguei Leonardo numa caixa maior e lhe dei água numa seringa. Já calmo e confiante, ele bebeu aos goles. Estava faminto mas era difícil comer e engolir qualquer coisa. Imediatamente levei-o ao médico veterinário que atendia aos meus animais. Ele passou a noite na clinica tomando soro e fazendo exames. De madrugada foi operado – ficou por muitos dias com a mandíbula imobilizada por fio de aço, uma tentativa para voltar a poder usar a boca e comer que não se sabia se ia dar certo, caso contrário, disse o médico veterinário, teria que ser eutanasiado.

Milagrosamente Leonardo se recuperou. Sua boca, é claro, não tinha mais aquele formato natural de boca, mas funcionava… Ele engordou, cicatrizou as feridas e ficou lindo. Ficaram algumas seqüelas: a grande cicatriz à volta do pescoço, o braço que arrastava ao andar, a língua torta – ela cicatrizou mas perdeu parte do tecido central. Durante seis meses Leonardo tinha pesadelos toda noite – eu acordava com seus gemidos (ele passou a dividir a cama comigo) e o despertava – ele estava revivendo em sonho os horrores que passou. Também tinha medo de estranhos e se escondia atrás do armário sempre que chegava alguém que ele não conhecia. Aos pouquinhos, os pesadelos foram sumindo e o medo de estranhos também. Leonardo era muito sociável, meigo e brincalhão – gostava de estar junto, de cafuné atrás da orelha, de correr atrás de qualquer coisa que se mexesse à sua frente. Se esfregava na perna e ia no colo de qualquer um que se aproximasse. Viveu comigo, feliz, por quase 8 anos (infelizmente não tenho nenhuma foto dele). Morreu velhinho, confiando nas pessoas. Leonardo foi uma lição de amor e da capacidade enorme que os animais têm de perdoar.”

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