Mariangela Colombini Braga

SALVEI UM ANIMAL

Recanto Taliesin – Abrigo para animais portadores de necessidades especiais
AMBraga – Mantenedor de Fauna Silvestre – São Paulo
Relato: 06 de dezembro de 2010

http://recantotaliesin.blogspot.com/

Que final terá essa história?

(de Mariangela, Crônica sobre a canina Branca)

Surpreendida por uma beleza sem igual, impressionada com a capacidade da natureza em ser bela ou maravilhada com a natureza e suas formas de expressão. Assim fiquei quando vi, olhei para a Branca.

Uma cadelinha de no máximo 4 meses, um montinho de coisa branca no meio de um cruzamento de ruas  em um dia daqueles que olhando para o céu dizemos: vai despencar a maior chuva… o mundo vai cair… coisa do gênero.

Era um temporal mesmo! E lá estava ela deitadinha.

Parei o carro e fui reconhecer a visão. Temendo levar uma boa mordida pedi ajuda a um segurança que me assistia se protegendo da chuva encolhido na porta de uma fabrica próxima.

… o carro parado com o pisca alerta no meio do cruzamento em baixo daquele toró…

Enquanto me ajudava, respondia ao inquérito que eu despejava sobre ele.

Não, não a viu chegar ali, não ouviu barulho de atropelamento, nunca a viu por ali.

Ponto. Mais um sem história sem destino.

Levamos ao veterinário próximo que temendo também uma mordida durante o exame a anestesiou. Mesmo sob meu protesto. Alegando que um animal encontrado na rua poderia estar raivoso. Disse para eu partir e deixar internada para observação, friamente. Algo me incomodou naquele momento…

A ação foi imediata e impensada, apenas ação. Peguei a coisinha branca no colo adormecida, sem nada dizer, carreguei para o carro novamente, sem nada dizer.

Pronto, chegamos à outra clínica.

Relatado os fatos, encontrei finalmente um parceiro. Tranqüilizou-me a respeito de minha opinião e ação brusca ao retirar a coisinha branca daquele local primeiro. Carinhosamente fez alguns exames, ela já acordava… Um assistente tentava secar os pelos ainda molhados pela chuva e eu segurava sua cabecinha.

Não havia sinais aparentes de atropelamento, ferimentos ou coisa parecida, mas, devido a situação em que a encontrei, havia a possibilidade. Só exames mais detalhados poderiam conferir a suspeita. No momento, trataríamos o quadro estressante e uma enterite severa.

Ficou lá a coisinha branca por sete longos dias…

Não fui visitar. Não me perguntem por que, pois até hoje não aceito a resposta então sempre haverá um porque após a explicação. Quer ver?

Não fui visitar porque não queria me apegar. Estava com a casa lotada de cães resgatados do abandono. Uma bem recente com 4 meses de idade também, a Belle.Vou desviar um pouco, a Belle seria sua amiga inseparável depois. Brigavam, disputavam mas não se largavam até que uma disfunção renal obrigou a Belle largar da nossa companhia.Voltando, achava que pela beleza e por ser filhote eu encontraria fácil um lar para ela com a ajuda daquele pessoal da clínica que por telefone me informavam duas vezes ao dia seu estado sempre finalizando com a expressão: ela é linda!

Chegado o dia de enfrentar.

Fui acertar contas com os profissionais (a clínica não cobrou a internação por ser um animal encontrado na rua) e finalmente vê-la para iniciar o trabalho de divulgação para adoção.

Sentada em um degrau, eu esperava por ela que sairia por uma porta que dava acesso à área de internação. Quando menos espero, corre em minha direção uma coisinha branca, peluda, aparentemente saudável, feliz.

Pulou em meu colo e lambia meu rosto.

Quem disse que chamei? Quem autorizou ela me banhar de baba e me encher de pelos? Quem disse que eu queria abraçar? Quem falou para ela quem era eu? Quem era eu?

Sim, quem era eu, quem era ela para ambas.

Nos conhecíamos sem duvida, nos amávamos. Ela era minha e eu era dela. Acabou adoção, acabou casa cheia de cães abandonados, eu tinha mais um!

Fiz a ficha, nome: Branca.

 Proprietário: Eu.

Como podemos entender esse “impritimam”. Não assuste, não errei na ortografia, inventei. Explico já.

Esse amor, essa atração vem impressa no animal. Não é possível um amor assim a primeira vista, sendo que antes já esteve com outros carinhos, outros afagos. Reconhecem aquele a quem adotaram para sempre seu. Um vinculo de amizade se mostra e não se forma pois já existia em algum lugar.

Que lugar?

Impossível para pessoas como eu ou como nós, negar a alma dos animais. A racionalidade.

No convívio diário, nas mil situações que vivenciamos com eles, só se pode concordar que ali existe um espírito evoluído a ponto de amar incondicionalmente.

Dizem que os atraímos com alimento e isso é uma condição. Na tentativa de derrubar o incondicional. Ora, eu, você, sabemos que não é assim.

Não há cara feia, falta de humor que os afaste de nós após selado o pacto, nos pertencemos.

Nos pertencemos é o titulo que se dá para explicar e narrar um caso de amor entre nós e eles. Algo inexplicável. Mas, vivenciavel se permitimos.

Seguiu assim a Branca 10,13,14 anos juntas.

 Como com os filhos, dias de muita bagunça, risadas. Dia de educar, ralhar, corrigir. Mas no final o amor é o mesmo.

Momentos de apatia, doença, vencidos e risos, brincadeiras novamente.

Em minha solidão, a presença, a lambida, o aconchego. A amizade que não tem fim, a presença que só se afasta se eu colocar espaço, distancia, caso contrario somos sempre uma.

Quem me dera… fosse eterno.

Na minha solidão já não estará presente, em breve. É a vida! Para ela também…

Quase não enxerga, quase não ouve, quase não anda mas ainda me ama. A fome de hoje é a necessidade de minha companhia, como se dissesse com os olhinhos e o choro manhoso: vamos aproveitar nosso pouco tempo juntas.

Aproveito. Egoisticamente aproveito, mesmo quando me falta paciência para a higiene do trocar a fralda. Quando as dores musculares chegam após tanto carregar seu peso. A vontade de sair, passear, me distrair é deixada para depois. Depois de aproveitar você, depois de ter que cuidar de você. Depois de querer cuidar de você.

Você que cuidou de mim, que cuidou das minhas emoções, realizando o trabalho de um psicoterapeuta aplicando a terapia do amor, da companhia, da presença sempre afetuosa do carinho, do afeto.

Por você fui curada, amparada.

Você preencheu meus momentos vazios, minha carência, aguentou minha tagarelice falando de coisas que teria vergonha de falar a uma pessoa, como eu, da minha espécie.

Você escutou meu intimo e sentiu o tamanho da minha capacidade de amar pois interagimos.

Nesse interagir com você, aprendi ainda mais sobre fidelidade, amizade e não condicionar.

Você ainda não se foi, porque estou sugerindo o passado, quase determinando que assim estou conjugando o verbo amar você?

Porque nunca Branca, nada que se refere a você será passado. Você sempre estará no meu presente porque está fazendo o meu futuro.

Nossa história não tem fim.

 

Anúncios