Lorena Dias

SALVEI UM ANIMAL

Lorena Dias
22 anos
Rio de Janeiro / RJ – Brasil
Relato: 10 de novembro de 2012

Johnny Depp, o gato massagista.

Tudo começou no dia 26 de agosto deste ano, em uma ida ao Mercadão de Madureira, Zona Norte do Rio. Vi perambulando serelepe pelos corredores um gatinho branco extremamente magro, era praticamente só cabeça, mas parecia feliz, ia de loja em loja, cheirava os gatinhos mais ‘privilegiados’, aqueles que têm até uma caminha dentro de alguma loja, e continuava seu caminho.

E eu continuei o meu, apesar da magreza excessiva e aparente fragilidade do gato terem me abalado um pouco. Continuei a fazer minhas compras, aproveitei e passei em um pet para comprar a ração para o meu gato (Sol).

Na saída do Mercadão, encontrei-o novamente, deitado, lindo, branco e amarelo, com um olho de cada cor. Na mesma hora abri o saco de ração, e despejei uma generosa quantia no chão mesmo, que foi rapidamente devorada com a voracidade de quem há tempos, quiçá nunca, teve um alimento de qualidade, e assim se seguiu, uma, duas, três grandes quantias de ração até que ele estivesse satisfeito.

Depois de muito afago consegui me despedir dele, com um aperto no peito e aquele nó na garganta, vim embora, não olhei pra trás. Quando cheguei em casa minha cabeça não saia dele, ele estava aparentemente machucado, faltavam alguns dentes, e um pedacinho da orelha, os caninos estavam bem desgastados apesar dele parecer um gato jovem.

Fiz alguns contatos pela internet, não sabia bem como proceder para resgatar um gato, minha mãe morria de medo, por ser um animal de rua. Consegui com uma veterinária que fizesse os testes de FIV/FELV para que eu pelo menos o pudesse trazer pra casa.

Segunda feira 7h da manhã, estava eu (e minha mãe muito contrariada) no Mercadão novamente, à procura do gato. Cheguei, tinha um rapaz na porta que, ao me ver com uma caixinha de transporte na mão, perguntou se eu iria pegar algum gato. Quando o descrevi, ele disse ‘ah o Pirata’ (por ele ter um olho de cada cor, achavam que ele era cego), ‘ele é cria daqui, mas ele é pequeno e fraco e apanha muito dos outros, ele fica andando aí por cima, daqui a pouco ele desce e fica na frente da lanchonete pedindo comida’. Não deu outra, 10 minutos depois estava ele, como habitual, aos pés das pessoas com seu miado engraçado de pedinte profissional criado no submundo de Madureira.

Cheguei até ele e o abracei, sem nada, no colo, a roupa cheia de pelos, ele sujo, com um odor peculiar que só o Mercadão de Madureira tem. Ele tinha exatamente o mesmo cheiro que as casas de artigos religiosos espalhadas por aqueles corredores. Botei ele na caixinha, e levei pro carro. Miou, muito, chorou muito, fiquei com pena e soltei ele dentro do carro mesmo. Ficou a viagem toda de Madureira até a Tijuca ( Casa da Veterinária) escondido embaixo do banco. Até resolver fazer besteira e entrar no porta luvas (POR DENTRO da lataria do carro). Superado o susto, o desespero, o choro, gatinho recolocado na caixa.

Momento do resgate, sujo e com medo, em baixo do banco do carro.

Chegamos. Enfim, conseguia respirar, o nó na garganta aos poucos dava lugar a uma certa emotividade sem muita explicação. Deixei ele lá, em uma gaiolinha, para ser testado e, se tudo desse certo, castrado. Deu.

Na veterinária, extremamente assustado.

Quase 15 dias depois, peguei ele. Ele chegou em casa dia 10 de Setembro, trazendo seu olhar profundo, suas massagens amorosas, seu miado engraçado e uma companhia para o Sol, que a princípio não gostou muito dessa ideia, mas a cada dia fica mais apegado ao irmãozinho.

Johnny Depp, no primeiro dia em casa.

O loiro dessa casa ainda nos dá alguns sustos por conta da sua proveniência, excesso de verminoses adquiridos nas ruas, sangramentos, uma desnutrição profunda, algumas alergias. Hoje, dois meses após ser resgatado, já engordou mais de 1kg e já apresenta uma aparência saudável.

Com o irmão, Sol.

Johnny ainda carrega no olhar uma apaticidade que chega a machucar a gente, um olhar de quem passou por muita coisa, mas que consegue facilmente se deliciar com ternura ao receber uma brisa na janela, ao deitar nos nossos pés a noite, ao começar a amassar imediatamente quando colocado em nossa barriga e ao ronronar ao ser acariciado.

Na janela (TELADA), pegando seu ventinho.

 Ah, e o medo da minha mãe se transformou em uma cotidiana recepção calorosa, com músicas que são cantadas especialmente para ele quando ela chega do trabalho, e em um amor incondicional e notoriamente recíproco.

E, finalmente, em sua modalidade esportiva predileta, dormir na nossa cama.