Sádica diversão

Sádica diversão – crueldade com animais e violência humana

Para muita gente, quando a dor não é humana é diversão. Em muitas situações, quem maltrata animais exercita um lado sádico, que sente prazer covarde e criminoso em causar sofrimento.

Autor: Marco Frenette

Diz a velha anedota: o desinformado se aproxima de uma roda de apostadores de briga de galo e pergunta a um matuto qual é o bom. O matuto indica o galo bom e o desinformado aposta. E vê seus trocados irem embora, junto com a vida do galo “bom”, destroçado pelo adversário. Vai reclamar com o matuto e este desconversa. “Ocê perguntou qual era o bão, e eu falei. Só que quem ganha é sempre o bicho mais ruim.” Mas nem só da “ruindade” do galo bom de briga ou da “bondade” do mau de briga sobrevive essa modalidade de diversão selvagem. Ela é movida à cruel capacidade humana de encontrar divertimento na dor alheia.

Como resumiu o romancista Normam Mailer, “rios de dor irrigam o mundo”. No entanto, paralelamente às dores da humanidade, há as intermináveis atrocidades que a espécie dita racional infringe às demais. Dos matadouros aos rodeios, das touradas às brigas de galo e de cães, passando pelos maus tratos dos animais domésticos ou nos circos – o que será que leva o homem a tomar apenas para si o direito de não sofrer?

A psicóloga Iris Franco afirma que essa atitude vem do fato de o homem estar acostumado a se enxergar como ser superior. E alerta: “Em muitas situações, quem maltrata animais exercita o lado sádico do ser humano, que sente prazer em causar sofrimento. É um prazer covarde e criminoso, obviamente”.

Com base em fotografias de bois e cavalos usados em rodeios, a estudiosa Irvênia Prada flagrou graus de sofrimento que vão além do físico: “Na presença de luz, a pupila tende a diminuir. Na arena de rodeio, elas aparecem de modo dilatado, indicando vigência de processo doloroso intenso e vivência de fortes emoções, como o medo e o pânico. Tudo isso caracteriza o sofrimento mental do animal”.
Nos rodeios, para demonstrar um comportamento selvagem, os animais recebem choques e pancadas. Um artefato de couro (sedem) é amarrado ao redor do corpo do animal, apertando o pênis ou saco escrotal. No momento em que o animal sai à arena, o sedem é puxado, causando dores fortíssimas, provocando fraturas ou hemorragias internas.

Para Sônia Felipe, doutora em Teoria Política e Filosofia Moral, atos violentos contra os animais só fazem encolher a moralidade no sujeito que os pratica. “A dúvida que se coloca hoje para todo profissional e cidadão é: incluir ou não seres não-racionais no âmbito das considerações morais?” A conclusão a que Sônia Felipe chega sobre hábitos de maltratar animais é interessante e grave do ponto vista psicanalítico. “Há o perigo de que nos dessensibilizemos a ponto de sermos indiferentes. Tratando mal os animais aprendemos a destratar pessoas, sempre que parecerem estar mais próximas da condição animal do que do refinamento social que a educação, o patrimônio e o status propiciam aos mais favorecidos.”

Conexão antiga

A Humane Society of the United States fez um estudo nacional em que são cruzados casos de violência doméstica envolvendo famílias que possuem animais de estimação. De 1.624 casos analisados de pessoas que maltrataram animais nos EUA em 2000, em 922 deles houve violência intencional, como torturas e mutilações, e em 504 constatou-se negligência e abandono. Em 21% dos lares em que se detectou crueldade intencional contra animais foram apuradas também formas de violência entre familiares, como abusos contra crianças e idosos.

Outro estudo norte-americano, mais antigo, mostrou que de 28 criminosos condenados por homicídios e crimes sexuais dez haviam maltratado animais na infância e 13, na adolescência. Dados do New Jersey Division of Youth and Family Services for Child Abuse, de 1983, demonstram que 88% das famílias que têm animais de estimação, com histórico de abuso contra crianças, possuíam pelo menos um membro cada uma que cometera crueldade contra animais. Em dois terços dos casos o agressor é um dos pais. Porém, no restante, os agressores eram as próprias crianças, que reproduziam nos animais a violência que haviam experimentado na pele.

Nos EUA, o maltrato e assassinato de animais é sujeito a severas penas de reclusão, devido à consciência desta ligação entre criminosos e torturadores de animais. No Brasil, maltratar animais, domésticos ou selvagens, é crime desde 1998, passível de detenção de três meses a um ano. Além dessa legislação comum, existe a Declaração Universal dos Direitos dos Animais, da Unesco, celebrada na Bélgica em 1978, e assinada pelo Brasil, que lista entre os direitos dos animais o de “não ser humilhado para simples diversão ou ganhos comerciais”.

Parte da sociedade brasileira já combate ativamente a violência contra animais, a exemplo do que ocorreu em Santa Catarina, em 1997. Após muita movimentação de entidades de defesa e proteção de animais, conseguiu-se a proibição legal da Farra do Boi, que agora é passível de punição com até um ano de prisão. Na prática, porém, as autoridades ainda fazem vista grossa. Todos os anos centenas de bois são torturados e mortos em várias comunidades do estado. A farra começa quando o boi é solto, perseguido e agredido com paus, facas, lanças de bambu, chicotes e pedras. No desespero, o boi corre em direção ao mar e acaba se afogando. Há variações do assassinato. Muitos são incendiados ou degolados.

Outro tipo de mobilização que amplia os horizontes éticos é aquela que contesta a necessidade de matar animais para aprender medicina humana ou veterinária. Exemplo de posicionamento ético frente ao problema é o caso do biólogo Sérgio Greif, formado pela Unicamp. Ele recusou-se durante o curso a freqüentar as aulas em que os animais eram mortos. “Meus valores pessoais me diziam que os animais são sensíveis à dor, então não é nosso direito infringi-la; eles têm consciência da vida, então não é nosso direito tirá-la. Me formei um profissional tão qualificado quanto qualquer outro formado pela instituição, com talvez um ponto positivo a mais: não precisei matar para isso.”
Divirta-se se for capaz

Nas brigas de rinha. Vindas dos EUA, já chegaram ao Brasil: há rinhas de Pitbull Terrier, que lutam até a morte ou até a desfiguração completa do adversário. Brigas de galo são uma constante no México e em vários estados do Brasil. Os galos têm esporas e bicos “reforçados” com pontas de aço.

Na farra do boi. Antes do evento o boi passa fome por vários dias. É solto e agredido pelos “farristas”, com paus, facas, lanças de bambu, cordas, chicotes. No desespero, corre em direção ao mar e acaba se afogando. Há variações do assassinato. Muitos bois são incendiados ou degolados. A tortura pode continuar por três dias ou mais.

Nos rodeios. Os animais são fisicamente forçados a demonstrar comportamento selvagem. Agulhadas, choques e pancadas são usados para irritá-los. Um artefato é amarrado ao redor do corpo do bicho, apertando o pênis ou o saco escrotal – o que, além de dor, pode também provocar rupturas viscerais, fraturas, hemorragias e até morte. Saltos desesperados, não condizentes com a natureza do animal, causam contusões e quedas, fraturas de perna, pescoço e coluna. Novilhos perseguidos muitas vezes morrem por ruptura na medula espinhal.

No circo. Animais são dominados e amestrados através da dor e da tortura. Obedecem por medo. Elefantes, por exemplo, passam por sessões de espancamento e vivem acorrentados e em jaulas apertadíssimas. Os leões são dominados pelo fogo e por chicotes, muitas vezes garras e presas são extraídas. A quase totalidade vive em condições precárias de higiene e não recebe tratamento veterinário adequado. Velhos, são sacrificados ou abandonados.

Fontes:
Revista dos Bancários
http://www.eugostodebicho.com.br/sadica_diversao.htm

Anúncios