O Meio Ambiente

O texto a seguir é um resumo do capitulo 10 do livro “Ética Prática” do filósofo australiano Peter Singer.

Peter Singer examina a questão das decisões relacionadas com o meio ambiente, enfocando os valores em jogo nas controvérsias sobre a preservação das regiões incultas. Apresenta um breve exame das origens das atitudes modernas com relação ao mundo natural.

A tradição ocidental dominante perante a natureza tem origem em idéias defendidas pelos hebreus e pelos gregos antigos. Para esses, o mundo natural foi criado por Deus para o benefício dos seres humanos e posto a seu domínio. Os humanos são os únicos membros moralmente importantes desse mundo. A natureza não tem nenhum valor intrínseco e a destruição de plantas e animais não pode ser reprovada exceto se resultar em prejuízo aos humanos. O crescente nível de destruição, que põe em risco a sobrevivência humana, confere às regiões selvagens um valor de raridade que fortalece o argumento em favor da preservação, ainda nos termos de uma ética centrada no ser humano. O autor também ressalta que é preciso tomar cuidado para não infligir perdas irreparáveis às próximas gerações, sendo necessário ao decidir sobre a derrubada de florestas, por exemplo, levar em conta o valor que poderão ter para as gerações do futuro (imediato e remoto). A ética centrada no homem apresenta argumentos a favor de “valores ambientais” ao considerar que o crescimento econômico baseado na exploração dos recursos não-renováveis traz benefícios à presente e às próximas gerações, mas a um preço que poderá ser pago pelas gerações futuras.

Em qualquer abordagem séria dos valores ambientais, a questão do valor intrínseco será sempre central. Algo tem “valor intrínseco” se for bom ou desejável em si; o contraste se dá com o “valor instrumental”, valor em forma de meio para a obtenção de algum outro fim. O autor defende o ponto de vista de que é arbitrário pensar que só os seres humanos têm valor intrínseco. E pergunta: até onde chega esse valor? A todos os seres sencientes, mas exclusivamente a eles? Ou esse valor extrapola a fronteira da sensibilidade?

Discutindo essa questão, ressalta que, quando a construção de uma represa inunda um vale e mata milhares ou milhões de criaturas sencientes, deve-se atribuir a essas mortes uma grande importância no âmbito das avaliações dos custos e benefícios da construção. Para os utilitaristas, se a represa destrói o habitat dos animais, é preciso considerar o fato de que essa perda é contínua. Se fundamentarmos nossa decisão além dos interesses humanos, teremos mais elementos contrários às vantagens econômicas da construção da represa. Nesses cálculos devem agora entrar os interesses de todos os animais que vivem na área a ser inundada. E não seria o caso de atribuirmos importância apenas ao sofrimento e à morte desses animais, mas também ao fato de que toda uma espécie pode desaparecer. Temos aqui uma divergência moral fundamental – quais tipos de seres devem ser levados em conta em nossas deliberações morais?

Será possível um rompimento mais radical com a posição tradicional, indo não só além dos interesses humanos, mas também além dos interesses dos seres sencientes? Será possível mostrar que alguns ou todos os aspectos da inundação do vale têm valor intrínseco, de tal modo que devam ser levados em conta independentemente dos seus efeitos sobre seres humanos ou animais? Uma ética embasada nos interesses de criaturas sencientes parte de premissas bem conhecidas – as criaturas sencientes têm vontades e desejos. Mas ao abandonarmos os interesses de criaturas sencientes como fonte de valor, onde encontraremos valor? O que é bom ou mau para as criaturas não-sencientes, e por que isso tem importância? Podemos ver o florescimento das plantas de qualquer região inculta como bom em si, independentemente de sua utilidade para as criaturas sencientes? Como avaliar a importância relativa do florescimento de diferentes formas de vida? Um pinheiro de dois mil anos de idade é mais digno de ser preservado do que um tufo de relva? Não considerando a senciência, o limite entre objetos naturais vivos e inanimados fica mais difícil de defender. Seria pior abater uma velha árvore do que destruir uma bela estalactite que levou muito mais tempo para atingir a forma atual? Com que base se poderia emitir tal opinião? A melhor defesa conhecida de uma ética que abranja todas as coisas vivas poder ser a de Albert Schweitzer com sua expressão “respeito pela vida”, para ele o princípio fundamental de moralidade. É bom conservar e acalentar a vida; é ruim destruir e reprimir a vida. Paul Taylor, de forma semelhante, diz que toda coisa viva está “em busca do seu próprio bem, de uma maneira que lhe é única” e, pensando dessa forma, estaremos aptos a atribuir à existência de todas as coisas vivas o mesmo valor que atribuímos à nossa. O autor critica a abordagem ética de “respeito à vida” feita por Schweitzer através da utilização de termos como “anseio”, “exaltação”, “prazer” e “terror”, já que esses não dizem respeito às plantas. E ressalta que, na ausência de consciência ou senciência, não é obvio por que devemos ter mais respeito por uma árvore do que por uma estalactite, por um organismo celular do que por uma montanha.

O ecologista norte-americano Aldo Leopold defende uma “ética da terra”, que trate da relação do homem com a terra, incluindo o solo, a água, as plantas e os animais que nela vivem”. Para Leopold, “uma coisa é certa quando tende a preservar a integridade, a estabilidade e a beleza da comunidade biótica; é errada quando apresenta a tendência contrária”. O filósofo norueguês Arne Naess estabeleceu distinção entre as tendências “superficiais” e “profundas” do movimento ecológico, originando a expressão “ecologia profunda” – preservação da integridade da biosfera pela necessidade dessa preservação, ou seja, independentemente dos possíveis benefícios que essa preservação possa trazer para os humanos. Richard Sylvan e Val Plumwood também levam sua ética além das coisas vivas, incluindo a obrigação de “não pôr em risco o bem-estar de objetos ou sistemas naturais sem uma boa razão para fazê-lo”. Bill Devall e George Sessions defendem a idéia do “igualitarismo biocêntrico” – na biosfera, todas as coisas têm o mesmo direito de viver e florescer, bem como de alcançar suas formas individuais de desenvolvimento e auto-realização; enquanto partes do todo interligado, todos os organismos e todas as entidades da ecosfera são iguais em termos de seu valor intrínseco. Para o autor essa idéia não deixa claro o valor de seres vivos considerados individualmente, já que nenhum indivíduo é necessário para a sobrevivência do ecossistema, como também não sugere que tenham, todos, um valor intrínseco ou mesmo um valor intrínseco igual. Sugere que a ética ecológica poderia tornar-se mais plausível se fosse aplicada no nível das espécies ou dos ecossistemas. Lawernce Johnson ressalta a idéia de holismo, afirmando que os interesses de uma espécie ou de um ecossistema devem ser levados em conta, juntamente com os interesses individuais, em nossas deliberações morais. Freya Mathews afirma que qualquer “sistema auto-realizador” tem valor intrínseco no sentido de que procura manter-se ou preservar-se, incluindo espécies e ecossistemas como entidades holísticas, ou individualistas, dotadas de sua própria forma de realização. O autor pondera que a ética da ecologia profunda tem problemas semelhantes aos levantados com a idéia do respeito pela vida – não basta que se afirme que árvores, espécies e ecossistemas têm interesses, mas que têm interesses moralmente significativos. Podemos avaliar essa questão perguntando o que significa para a entidade afetada ter um interesse não realizado. É possível, segundo o autor, dar respostas inteligíveis a essas perguntas quando elas são feitas a propósito de seres sencientes, mas não de árvores, espécies ou ecossistemas, constituindo-se esse um limite e um problema desse argumento ético. Para Singer, a menos que se possa dar a esse uma fundamentação mais sólida, devemos nos restringir aos argumentos baseados nos interesses das criaturas sencientes presentes e futuras, humanas e não-humanas, ressaltando que o valor da preservação do que resta de regiões naturais excede em muito, pelos motivos já expostos, os valores econômicos obtidos através de sua destruição.

Os contornos gerais de uma ética verdadeiramente ambiental incluem, em seu nível mais fundamental, o incentivo à consideração dos interesses de todas as criaturas sencientes, inclusive das gerações que habitarão o planeta num futuro remoto, acompanhada da idéia de uma estética da apreciação dos lugares naturais não devastados pelo homem. Além disso, desestimula a existência de grandes famílias nas cidades, avalia o sucesso em termos do desenvolvimento das aptidões individuais e da conquista da satisfação e da realização (ao invés do acumulo de bens de consumo) e incentiva as medidas para diminuição da poluição e da exploração nociva e extravagante do meio ambiente (incluindo a destruição de florestas e o consumo de carne).