Golfinho também tem cultura

Autor: Salvador Nogueira – Folha de S.Paulo – 07/06/2005

Quem não tem mão, caça com esponja. Pelo menos é o que fazem os golfinhos nariz-de-garrafa, segundo um grupo internacional de pesquisadores. E a parte realmente surpreendente da descoberta: as mães aparentemente ensinam as filhas como usar esponjas marinhas para obter comida. Moral da história: golfinhos desenvolvem e usam ferramentas.

A revelação, feita por um grupo encabeçado por Michael Krützer, da Universidade de Nova Gales de Sul, em Sydney, Austrália, demonstra que os golfinhos têm a capacidade de desenvolver uma cultura material – ou seja, técnicas de uso de instrumentos que são transmitidas por aprendizado, em vez de serem meras atividades incluídas na “programação genética” da espécie. Até agora, a transmissão cultural só havia sido demonstrada com segurança em humanos e seus parentes mais próximos, como os chimpanzés.

O estudo, publicado na revista científica da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, a “PNAS” (www.pnas.org), foi feito à custa de muito esforço. As observações dos bichos, de uma população bastante estudada que habita a região de Shark Bay, na costa oeste australiana, começaram em 1988 e só foram concluídas em 2002. E, a rigor, o grupo de cientistas já trabalhava com esses golfinhos desde 1984.

Ao longo das observações, perceberam que alguns golfinhos arrancavam um pedaço de esponja do leito marinho e o colocavam no rostro (focinho). Com isso, sondavam o fundo do mar à procura de peixes. Detectaram pelo menos 15 deles que faziam isso. Apenas um era macho, os outros eram fêmeas. Também conseguiram ver pelo menos sete filhotes fazendo isso. Os filhotes machos das mães que usavam esponjas não adquiriam o hábito, somente as fêmeas. Então, pensaram os cientistas, das duas uma: ou as mães ensinam isso às filhas (embora nenhuma tenha sido flagrada fazendo isso), ou os genes de uma mesma linhagem de golfinhos induzem a esse comportamento nas fêmeas.

Para tirar a dúvida, os cientistas fizeram uma série de análises do DNA dos animais.

“A Janet Mann [uma das autoras do estudo] vem discutindo fervorosamente o uso de esponjas pelos nariz-de-garrafa de lá com o objetivo de descrever aspectos de transmissão cultural”, conta Marcos César Santos, biólogo da USP que estuda botos marinhos em Cananéia (SP). “Acho que esse novo estudo é o começo de uma nova onda de discussões a respeito disso, porém agora com muito mais embasamento, pois a famigerada genética entrou no páreo.”

Redefinindo a cultura

O mais interessante de tudo é que, aparentemente, a “cultura de esponja” dos golfinhos é passada apenas de mãe para filha, não dentro de uma comunidade. Para os pesquisadores, é uma boa hora de repensar o conceito de cultura.

Os cientistas que estudavam primatas comparavam comportamentos culturais avaliando diferenças entre os animais de diferentes regiões. Para os golfinhos, isso não funciona. “Nós propomos, portanto, estender a definição para incluir tradições que são habituais a alguns, mas não a outros indivíduos numa mesma área, dentro da mesma população, em que dados genéticos e comportamentais são inconsistentes com os de indivíduos que adquiriram o comportamento geneticamente”, escrevem.

 

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