Do Lobo ao Cão

lobo

– Este texto é transcrição de documentário apresentado pelo canal Animal Planet –

Cães são parte da nossa vida. Eles nos dão alegria. Nós os amamos e parece que eles nos amam.

Acaba de nascer uma ninhada de cães aqui em casa. Por motivos práticos, eu não deveria ficar com nenhum. Mas não sou a primeira humana a achá-los irresistíveis. Não é estranho como nos ligamos aos cães? Eu adoro cuidar do meu cachorro Bill. Eu não sei quem gosta mais. Ele adora ser escovado… Esse elo entre homem e cão pode ser muito forte. Uma mulher reencontra seu cão após alguns dias de ausência. Ela chora de alegria. “Ela não me esqueceu mesmo!”. E a morte de um cão pode arrasar seu dono.

As emoções entre nós e os cães podem ser muito perturbadoras. Por que são tão intensas? E por que, entre todos os animais selvagens do mundo, foi o cão que escolhemos como nosso melhor amigo? E por que eles são assim? Por que gostam de brincar? Por que correm atrás de bolas? Por que pegam gravetos? Por que adoram passear? Por que guardam nossa casa e enterram ossos no jardim? A resposta está no caráter, na personalidade do lobo. É difícil imaginar o Bill como um lobo em pele de Collie. Ele é tão afetuoso e leal. Os lobos, por outro lado, parecem assassinos ferozes.

Amamos os cães, mas temos muitos mitos sobre os lobos, que os mostram como alvo de ódio e medo, como Chapeuzinho Vermelho ou a história do lobisomem. Mas todos sabemos que os cães domésticos descendem dos lobos. Os lobos parecem ferozes, mas em suas alcateias eles mantêm a agressividade sob controle. A alcateia é liderada por um casal: o macho-alfa e sua fêmea, e há uma hierarquia segundo a idade e a experiência. Em cada lobo há uma mistura de medo e agressão: medo do animal hierarquicamente superior e agressividade contra quem está abaixo dele. Cada animal gostaria de chegar ao topo do ranking mas se conforma com sua posição social. É verdade que há brigas, rosnados, mordidas, agressividade mas não costumam se ferir com gravidade e isso reforça seus laços e a união da alcateia.

Então, teoricamente, você, sua família e seu cão formam uma alcateia e você é o macho-alfa. Você é muito maior que o seu cão e pelo tamanho pode impor sua autoridade. Você controla a comida dele, como no meio selvagem o macho-alfa controla o acesso à presa. E você também controla o mais importante: sua reprodução. Quando o assunto é sexo, os lobos são disciplinados. O macho-alfa impede outros machos de acasalarem para garantir que só ele e a fêmea-alfa procriem. Mas também tem que evitar que os outros machos fiquem frustrados e abandonem a alcateia. Já que somos os líderes da alcateia, nossos cães se submetem a nós. Nós interpretamos isso como desejo de afeição. Há cães que demonstram submissão rolando, como um lobo selvagem submisso expõe a barriga a um animal dominante. Ele finge ser um filhote incitando o instinto parental do outro animal em vez da agressividade. Pensamos que o amor de nossos cães é incondicional, mas a verdade é que esse amor tem um toque de medo e podemos ver isso. Cães que parecem afetuosos, com as orelhas para trás e baixando o quarto traseiro estão com medo. Estão felizes em nos ver mas precisam nos agradar. E as vezes a hierarquia se inverte quando cães dominam pessoas. Muitos donos são levados a passear por seus cães. Este cão se recusa a comer depois do dono. Ele exige comer primeiro, como qualquer macho-alfa. “Não, eu dou o seu daqui a pouco. Não, não. Para com isso”. O cão intimida seus donos e a sua vontade prevalece.

Estou atrasada para ver Vicky Atkins, cujo cachorro tem problemas. Não sei de que raça é, mas acho que é bem grande. Pode ser um Rothweiller, pode ser um Pastor Alemão. Pode ter dentes grandes… e provavelmente tem. Espero que não seja muito feroz. “Vim ver o seu cão feroz”. “Entre”. “Obrigada”. E o cão feroz era um pequeno Cairn Terrier. “Por que me disse para ter cuidado com este cão ‘enorme’?”. “Por que quando ela está na poltrona, bem confortável e quentinha, e eu quero tirá-la, ela costuma me atacar”. “Sai, sai Pepper! Viu o que ela faz?”. “Também posso ouvir”. “Pepper, sai, sai”. “Ela deixou bem claro!”. “Esta poltrona é minha e como eu a deixei quentinha, ela acha que o lugar é dela”. “Quem você acha que está no comando?”. “Acho que é ela, mas não deveria ser. Viu só, não estou no comando. Você deveria ser minha melhor amiga!”. “O que pode acontecer se eu tentar sentar?”. “Experimente”. “Vem, vem, Pepper, sai da poltrona. Pepper!”. “E o que acontece é… nada, porque eu não faço parte da alcateia. Eu era uma loba nova me unindo à alcateia e ela ainda não decidira meu lugar na matilha”.

“Estou com a família Wilson e o seu cão, o Sam, costuma mostrar comportamento de lobo, revelando a fera que existe nele. E mostrando o que é ser membro da alcateia. Acontece à noite, nos dias de semana, quando toda a alcateia se reúne num só lugar. Estou fazendo suspense porque a história é ótima. É hora do programa de TV EastEnders”. O cão começa a uivar. “Dá para abaixar o som? Até eu tive vontade de uivar. Por que ele faz isso? É alegria? Tristeza?” “Não sei, acho que ele gosta da música”. “O que você acha?” “Que ele gosta de uivar”. “Será que não é porque estão reunidos e esse é o momento de ser uma alcateia?”. “Pode ser”. “Porque a teoria é que isso estabelece laços. Ao uivar, eles fortalecem os laços na alcateia”.

“Mas os uivos de um cão doméstico são um problema… que eu também tenho. Todas as noites nesta casa passamos pela mesma coisa. Eu vou dormir e o Bill fica aqui em baixo, mas ele uiva e chora”. “Não, desce!”. “Toda noite”.  Bill uivando. “Isso é de cortar o coração. E é isso o que ele quer”.

Entendendo as semelhanças entre as famílias de lobos e as famílias humanas, fica fácil entender porque os cães, selvagens ou não, uivam. O animal solitário diz: “Quero ficar com vocês”.  A alcateia diz: “Vem ficar com a gente”. E, uma vez reunida, a alcateia dorme… e todos se tocam física e emocionalmente. Então, pensar em você e seu cão como uma alcateia pode explicar muitos dos comportamentos do cão. E se observarmos bem os lobos, veremos que não são ferozes. Os lobos são animais moderados e ajudam uns aos outros. Este macho traz comida para filhotes que nem são seus. E os lobos têm um tipo de “aposentadoria” para os velhos e feridos. E essa moderação, combinada às habilidades de caça pode ter levado à primeira aliança entre homem e lobo.

Essa história começa há 500 mil anos aqui em Boxgrove, Sussex, onde foram encontrados ossos de homem primitivo. Mas eles estavam espalhados por toda essa área e datam do mesmo período dos ossos dos lobos. Então nossos territórios se sobrepunham, assim como nosso meio de vida. Nós comíamos os restos deles, eles comiam os nossos. Nós os matávamos pela carne e pele e eles provavelmente também nos matavam. Este osso tem marca de mordida de um grande predador e este é um osso humano. Então, éramos concorrentes! Mas em certo sentido também interdependentes e deve ser por isso que somos parecidos. Você deve estar pensando: costumo ser comparado aos macacos! Muito justo. Mas podemos ser comparados aos cães selvagens? Podemos. No Paleolítico, lobos e humanos eram espécies bem sucedidas, que ampliavam sua área no mundo. Ambos eram caçadores, mas um homem só não pode matar um animal grande. Um lobo só também não. Então ambos tínhamos que caçar em grupo. E ambos criamos sistemas sociais muito sofisticados para podermos viver juntos e cooperar sem brigar.

Então, como vou escolher? Agora fica interessante. Sou uma fêmea de Homo sapiens e meu marido caçador/coletor me trouxe uma ninhada de filhotes de lobo. Eles instigam tanto o meu lado maternal que vou escolher um. Mas qual deles? Eu gosto muito desse aqui e desse aqui também. Por quê? Porque eles são mais amistosos, eles são os mais mansos, mas aqueles dois, por outro lado, não me atraem. Se eu escolhesse um deles, seria uma seleção não-natural. Eu estaria brincando de Deus, selecionando a mansidão. Mas quanto tempo levaria para a mansidão se tornar uma característica dessa população de lobos? Mil anos? Algumas centenas? Não, muito menos, segundo um cientista russo que trabalhava nesta fazenda de raposas, na década de 70. As raposas prateadas eram muito ferozes e agressivas. Assim como eu, os criadores escolhiam as mais mansas para usar como matrizes. Em apenas 20 gerações, eles criaram um animal totalmente dócil a partir de um animal selvagem. No processo, muita coisa mudou na sua aparência. Sua pelagem ganhou áreas em branco e preto, suas orelhas ficaram tombadas e sua cauda enrolada. A aparência dos cachorros também foi se alterando, não só por acaso, mas intencionalmente.

O lobo fora domesticado. Mas foi só no Império Egípcio que vimos a cara dos cachorros. Os antigos egípcios realmente faziam um cruzamento seletivo. Quatro mil anos atrás havia muitos tipos de cachorros, mas aqueles que eram reproduzidos nos afrescos eram cães de caça, como este: altos, com orelhas eretas e excelente visão, usados principalmente para caçar gazelas. O seu equivalente nos dias de hoje é o Cão do Faraó. Este Cão de Ibiza deve ser o mais parecido com um cão egípcio. Acredita-se que esta raça descenda dos cães egípcios levados à Ilha de Ibiza.

Há 3.000 anos, os egípcios amavam tanto seus cães que, se um deles morria, era mumificado, enterrado num sarcófago e também pranteado. Os chineses, em especial, adoravam seus cães, e é então que começamos a ver raças mais familiares: cães de companhia, com o Pug e o Pequinês. Na dinastia Han, há 2.000 anos atrás, eles criavam Pequineses bem pequenininhos para que coubessem dentro das mangas. E eles não só ficavam bem quentinhos, mas, diz a lenda, que eles eram cães de guarda, apesar do seu tamanho, porque sabiam quem era mau ou não. E se a pessoa se aproximasse para apertar a sua mão, o Pequinês saía da manga e a mordia. A popularidade do Pequinês aumentava à medida que o budismo se espalhava na China. Os chineses gostavam muito de leões e o semi-mítico leão budista era venerado em todo lugar. Os pequineses eram criados para parecerem com o leão de Buda. Esses cãezinhos viviam no maior luxo, tinham até seus próprios serviçais. Mas a relação entre o homem e o cão nem sempre foi feliz. Teve também o seu lado negro. Os chineses criavam Pequineses mas também criavam estes aqui, os “chow-chow”. Eram criados para consumo. Na Manchúria, eles até tinham fábricas da raça e hoje a palavra “chow” é sinônimo de “comida”.

mastiff

Na época dos romanos, havia dez tipos diferentes de cães. Tipos, não raças. Entre eles, cães pastores, de guarda e de caça. Um cão do tipo de caça era o Mastife: grande, pesado e feroz, usado em batalhas ou colocado em arenas, para lutar. Às vezes, eles usavam coleiras com pontas ou lâminas nas costas. Eles deviam ser parecidos com o equivalente atual: o Mastife Inglês ou o Mastim Napolitano. Eles passavam fome por várias dias antes da batalha e alguns até eram chamados de “cães devoradores”. Para guarda, os romanos usaram um cão como este branco, o Marena, que ainda é usado para vigiar ovelhas na Itália. Eles eram criados para ter a pelagem branca e um comportamento não-predatório. E também era moda ter um cachorro em casa. Um famoso mosaico de Pompéia retrata um cachorro bem parecido com aquele ali, juntamente com a inscrição “Cave canen” – “Cuidado com o cão”. E não foi surpresa saber que os romanos também tinham cães de companhia. Eles seriam como esse “maltês”, uma das raças mais antigas, criada por sua pelagem branca e sedosa. Parece que até Cláudio, o Imperador, tinha um. Então, os romanos refinaram a arte da criação seletiva.

Mas as coisas iam mudar. Com a queda do Império Romano, cães sem dono voltaram ao estado selvagem e percorriam o interior. Os cães atacavam pessoas e até desenterravam corpos. Diz-se que o corpo do próprio Maomé foi desenterrado por cães selvagens. Contos de fadas sobre lobos datam dessa Idade das Trevas, assim como os contos sobre lobisomens. Talvez os culpados não fossem os lobos, mas os cães domésticos que viraram selvagens.

Só na era normanda, 1.000 anos depois, retomou-se a criação seletiva de cães e a Idade Média testemunhou a proliferação das raças. William, o Conquistador, trouxe o BLOODHOUND da França, mas só para caçadores e membros da nobreza. Cada animal era caçado por um tipo de cachorro. Havia o WOLFHOUND, que era menor do que é hoje, mas era forte o bastante para caçar e matar um lobo selvagem. Então surgiu o mais elegante e leve, o DEERHOUND, parecido com o GREYHOUND, e diz a lenda que até o rei Arthur caçava com ele. Mas o “rei do rio” era o OTTERHOUND. Ele pode detectar uma trilha submersa um dia depois e nadar por horas graças à sua pelagem, que é densa e impermeável e, veja, pés palmados. E então a nobreza alemã estava criando o BOARHOUND. Hoje ele é conhecido como DOGUE ALEMÃO e ele tinha de ser forte e veloz o bastante para caçar javalis selvagens. As pessoas comuns não podiam possuir esses cães, não lhes era permitido caçar. Eles nem podiam tocar nos cães. A caça é a influência mais importante no aspecto dos cães de hoje.

No século 18, havia cerca de 20 raças de cães na Europa. Não era muita coisa. E ter cães não era mais privilégio só da nobreza, mas também da aristocracia. E isto é o que você veria naqueles dias. Um par de DÁLMATAS mas não ao lado da carruagem, mas debaixo dela. Não presos, mas livres. O dálmata foi trazido por ciganos, da Índia para a Dalmácia, na Iugoslávia. Usados pela aristocracia, eles guardavam a carruagem e era um acessório da moda. Dizia-se que um dálmata podia trotar por até 120 quilômetros. O SPANIEL, é claro, veio da Espanha e era uma das raças criada para caça. Mas a aristocracia apreciava muito o KING CHARLES SPANIEL. Inteligente, dócil e amoroso, rapidamente foi adotado como animal de estimação.

A caça incentivava a criação de raças e o uso de armas para a caça fez com que a quantidade de raças literalmente explodisse. Os POINTERS e SETTERS, criados para apontar galos e faisões que eram caçados com facões ou redes, agora eram cães de tiro, assim como os SPRINGERS, criados para espantar a presa para os caçadores. Uma dúzia de cães recolhedores foi criada para trazer a caça abatida. Matilhas de BASSET HOUNDS perseguiam lebres. Eles eram pequenos e lentos o bastante para os caçadores seguirem. E a caça à raposa em si tornou-se uma cerimônia. O ritual da perseguição, os trajes e a elegância eram muito mais importantes que o abate do animal.

Foi durante o século 19 que tudo mudou dramaticamente. TERRIERS, como esses, são um bom exemplo do motivo. Os cães não eram mais uma regalia das classes altas. O AIREDALE, por exemplo, foi criado por moleiros, ao longo do rio Aire, para caçar lontras. E com a maior migração do interior para as cidades, cães como os COONHOUND, foram criados para caçar ratos. Nas cidades frias, as pessoas queriam companheiros, então mais cães eram criados como animais de companhia. O FOX TERRIER era das raças mais populares no final do século mas não para caçar raposas. Assim como ele, o COONHOUND deixou de caçar ratos para se tornar um companheiro. E seu tamanho diminuiu de 9kg para apenas 2kg.

O aspecto, e não a função, adquiriu maior importância. O importante era a raça. Com o advento das exposições, seu número quadruplicou. Mas isso teve um preço. Na época vitoriana e no decorrer da história, mutilamos nossos cães: cortamos suas orelhas, aparamos sua cauda, removemos os ergots e até cortamos seus tendões. Sabendo, ou sem saber, geramos deformidades congênitas. Os cães atuais têm mais de 300 problemas congênitos e novos problemas continuam a surgir.

O BULDOGUE foi criado no século 19 para lidar com touros. Seu focinho era curto para que o cão pudesse agarrar o touro e respirar. As dobras faziam com que o sangue do touro escorresse pelo focinho do cão, sem sufocá-lo. E os vitorianos usaram uma anomalia congênita – a acondroplasia – para encurtar e deformar o corpo do BULDOGUE.

O cão atual é o animal mais diversificado do mundo e pode ser o mamífero mais bem sucedido depois do homem. Os cães variam muito em tamanho, forma e cor. O DOGUE ALEMÃO é 7 vezes mais alto que o CHIHUAHUA. O SÃO BERNARDO é 50 vezes mais pesado que o YORKSHIRE TERRIER. Existem mais de 400 raças de cães no mundo todo, contudo todas podem acasalar entre si e, no geral, todas se comportam do mesmo jeito. Então, no decorrer de muitos milhares de anos, os criadores de cães escolheram no lobo as qualidades que queriam e então as exacerbaram.

Uma característica do lobo é muito apreciada – seu faro. No meio selvagem, os lobos usam seu faro, não a visão, para localizar sua presa. Os cães veem o mundo com seu nariz, como nós o vemos com os olhos. Em cada narina, os cães têm um milhão de receptores de odor. Os BLOODHOUNDS podem seguir um odor quatro dias depois. No meio selvagem, esse faro sensacional pode significar a diferença entre a vida e a morte.

Os cães que levam a presa ao caçador, os RETRIEVERS, retêm a habilidade do lobo de levar comida aos filhotes. O cão vai atrás do pato, vivo ou morto, não importa. Ele usa seu instinto de caça. No meio selvagem, o lobo mata e engole a comida. Ele precisa de comida para si e também para a alcateia. O cão e o lobo trazem a comida na boca mas o lobo usa seu estômago como “despensa ambulante”. Agora você entende por que os cães trazem gravetos? Os cães de guarda usam a agressividade do lobo contra animais que não pertencem à alcateia.

Há uma característica essencial para o sucesso do lobo, que é também uma prova de sua inteligência. O instinto levaria a maioria dos predadores direto à presa mas o lobo tem a habilidade de rodear sua presa. Ele parece correr na direção errada, mas ele está atrás da presa. E é esse instinto que foi selecionado para criar o cão de trabalho. Estes cães pastores, reunindo ovelhas, demonstram um comportamento de caça modificado. A maneira que “olham” as ovelhas, “apontam” as ovelhas, cercam e reúnem as ovelhas, é um comportamento inato, herdado dos lobos. No decorrer de gerações, ele foi modificado pelo pastor. Mas o comportamento mais óbvio, de rodear o gado, pode ser observado no trabalho dos cães. Então, lá vão eles, um de cada lado, correndo tão longe que às vezes não veem as ovelhas. O objetivo do exercício? Se aproximar de maneira que as ovelhas não fujam porque então eles teriam que correr para pegá-las.  Esse comportamento e a cooperação entre animais durante a caça são técnicas herdadas do lobo. Mesmo que os lobos provoquem a fuga de sua caça, essa estratégia permite que cheguem perto dos flancos e tentem fazer um ataque. Agora as ovelhas estão se reunindo por medo e, no meio selvagem, os lobos de aproveitam disso. Os lobos fizeram a mesma coisa com esses búfalos: chegaram perto o bastante para a manada se juntar, mas sem correr. Agora os lobos fazem um círculo em volta da manada. Tendo escolhido um animal, eles formam o círculo só em volta dele. Mas o que ocorre aqui? Os cães estão usando essa técnica, mas correndo por toda parte. Isso é porque os dois cães têm que fazer o trabalho de 10 ou 12 lobos. Os cães têm de ocupar todas as posições do relógio. Eles estão às 3 horas, e às 6 horas, agora um vai para as 9 horas e o outro para as 3 horas. E de volta às 12 horas. É cansativo mas surte o efeito desejado: as ovelhas estão contidas. O surpreendente é que isso, em termos de seleção, é um exemplo de manutenção de características, como rodear, e a inibição de outras, como pegar e matar. Cheirar, devolver, guardar e rodear, todas qualidades que o criador tomou do lobo.

Hoje, após milhares de anos de criação seletiva, temos isto aqui: um cão robô. Embora seja uma maravilha tecnológica, a coisa mais inteligente neste brinquedo é que ele cresce com você. Como um filhote de verdade, é preciso treiná-lo e vocês se tornam amigos. Você começa a se dar conta de que não é só o robô que está programado. Nós também estamos programados para reagir de certa maneira depois de milhares de anos de evolução com os cães. Especialmente com filhotes. Tem a ver com o focinho, as orelhas arredondadas, os olhos grandes, a maciez, os barulhinhos que fazem. E o meu bebê humano evoca essa mesma reação pelos mesmos motivos: um grande desejo de cuidar e proteger, formando laços muito fortes.

Então nosso amor pelos cães pode ter base nos filhotes. Os cães são encontrados no mundo todo, mas restam apenas alguns milhares de lobos no mundo. Uma tragédia para o lobo? Não necessariamente. O homem primitivo matava animais de maneira eficiente. Quando o homem começou a criar gado, para protegê-lo, começou a matar seu rival, o lobo. Enfrentando a extinção, os genes do lobo floresceram no nosso cão: um lobo manso que gosta, pensa e até age como seus donos, parte lobo e parte humano – um lobisomem moderno. Os antigos queriam um animal útil e companheiro, mas que nunca se tornasse um lobo novamente. E foi isso que conseguiram: um filhote. Nossos cães são filhotes sexualmente maduros, que mantemos eternamente como filhotes. É por isso que eles brincam o tempo todo. Lobos adultos raramente brincam. É por isso que eles fazem essas poses e até dançam: comportamentos juvenis. É por isso que eles lambem nosso rosto, como os filhotes do lobo lambem as bocas dos lobos adultos para estimulá-los a regurgitar comida. É por isso que ficam felizes quando chegamos em casa, como os filhotes de cada espécie de cão selvagem recebendo os pais que voltam da caçada. E nós deliberadamente criamos cães que parecem filhotes. Bom ou ruim, evitamos que nossos cachorros cresçam.

Então estou de volta com o meu filhote. Será que as pessoas têm usado os cães para seus próprios objetivos no decorrer da história ou será que os cães têm manipulado os humanos? Por que eles fariam isso? Aqui vão alguns fatos. No mundo todo existem cães ferais. Não são perdidos. São cães que precisam achar alimento e vivem sem ajuda humana. Eles realmente são selvagens. Aqui na Rússia há centenas de milhares de cães ferais. E quantos filhotes sobrevivem? Cerca de 5%. Mas com nossos cães domésticos, é diferente. Seu índice de sobrevivência é de quase 100%, maior do que qualquer animal selvagem. Talvez os cães manipulem os humanos para que eles os criem e assumam seus filhotes. Então, quem está usando quem?

Fonte: Animal Planet – Este texto é transcrição de documentário apresentado no canal de TV.