Continuamos no Coliseu, essa rinha gigante

A própria palavra já é feia: rinha. O que dizer do que se trata então? Como conceber que alguém de bom gosto e em sã consciência se interesse por rinhas (desculpe o cacófato), brigas ou mortes de animais cuja única desculpa pra isso seria a ignorância? (Ignorância é a minha, que não sabia que essas rinhas rendem milhões!) Os pobres galos entupidos de estimulantes, anabolizantes, desgrenhados, possuídos, vestidos para matar e o pessoal torcendo, gritando, com o polegar pra baixo e pra cima, como Cesar no Coliseu…

Nunca saímos do Coliseu. É só um disfarce. Empurra-se a miséria pra fora do meio de campo e mata-se se de escanteio. De fome, fora de foco. Rouba-se o dinheiro público e até o das cestas básicas dos famintos, mandando tudo pra Suíça. Depois, comemora-se com um belo Romanet Conti. Não caberiam no Maracanã, muito menos no Coliseu, os cristãos que morrem por segundo no Brasil tentando driblar o leão da fome.

Por que só a tecnologia evolui no século 21 deixando a consciência na pré-história?

Por que os espanhóis se orgulham de suas touradas, essa farra do boi organizada e chique? Amigos meus caíram nessa, em Barcelona, onde estávamos, e chegaram no hotel pra me encontrar enjoados, passando mal. Que horror é esse que fascina tanto as pessoas a ponto de se transformar em turismo?

Por que a morte de um touro indefeso enalteceria alguém que não fosse Teseu, o Herói, com H maiúsculo, que vence o Minotauro, no labirinto de Creta, representando, psicanaliticamente, o seu próprio inconsciente? E alguém lá quer saber de inconsciente? Só se for pra melhor aniquilar o outro, conscientemente.

Por que liberaram o assassinato de animais pra que se fizessem casacos e bolsas com suas sofridas peles? Pela conclusão estabelecida de que o dinheiro é mais importante que a vida?..

Não sabia da existência de rinhas de pit-bulls. Só de pit-boys. estas são preferíveis às primeiras, porque brigam por livre e espontânea vontade, ninguém os induz, obriga ou tortura para que fiquem possuídos. Já nascem assim. Matam-se ou escalpelam-se pelo puro prazer de matar, escalpelar, torturar. Pena que não seja só entre eles. Porque a graça, obviamente, é matar os miseráveis, os animais ou os indefesos, como o índio pataxó que morreu em Brasília, os meninos da Candelária ou, a última moda: os mendigos espalhados pelo Brasil afora e os gays com a dose diária de ”boa-noite, Cinderela”. Enfim, minoria nenhuma escapa ao requinte sempre renovado do ”pega pra capar”.

A violência das rinhas de galos, touros, pit-bulls ou pit-boys é a mesma que se transforma na guerra do Iraque, de Gaza, do Haiti, do Vietnã ou do Camboja dos anos 70. A mesma que matou Jesus, Ghandi, os índios, os negros, a mesma que mata de fome no Brasil, que transforma favelado em traficante.

E o que fazer com eles, os traficantes? Terapia à base de homeopatia, como se pensa em fazer pra acalmar os galos de briga quando os livrarem das rinhas? A opção de um galo de briga é a rinha ou a panela. E a do traficante? A morte ou a prisão. A não ser que uma dose maciça de homeopatia resolva tranqüilamente a disputa de ponto da Rocinha… Talvez a homeopatia unicista, que é mais forte, os faça negociar em paz… A mãe do traficante chamando-o na hora de ele sair pro assalto das seis: – Menino, não esqueça sua dose de pulsatilla!…

O morro soltando fogos porque chegaram os pacotes de homeopatia com o qual eles vão agora malhar a coca. Do mesmo tamanho e cor que a própria, e com a garantia de que não produzem ansiedade. A mistura perfeita . Heureka! O transgênico nacional competindo com a soja! Quem sabe assim o Brasil paga a dívida externa? Penso, no carro, vendo um rapaz de uniforme de colégio (particular e caro) me pedir carona só pra atravessar o túnel da Toneleros, por causa do cheiro de xixi que os mendigos deixam no lugar. (Sempre eles!)

Abri a porta do carona. O garoto entrou e tirou do bolso um pacotinho. Assim que entramos no túnel ele fez, rapidamente, uma fileira quilométrica de coca (ou seria homeopatia?) em cima da tampa do porta-luvas, enquanto pensava que eu olhava o retrovisor. Cheirou tudo, me agradeceu, muito simpático, e saltou no sinal, me desejando boa sorte. Mas não pude responder nada por causa do meu queixo, caído no chão.

Fonte: Jornal do Brasil – colunista Maria Lúcia Dahl
Data: 29.10.2004

 

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