Não violência em treinamento cirúrgico

Texto de: Nedim C. Buyukmihci, Médico Veterinário – Professor de Oftalmologia, Universidade da Califórnia, Escola de Medicina Veterinária, Departamento de Ciências Cirúrgicas e Radiológicas, Davis, Califórnia – Presidente da Association of Veterinarians for Animal Rights (AVAR), P.O. Box 208, Davis, CA 95617-0208; Copyright © 1989-2000.

Texto original em Inglês: http://www.avar.org/surgical_training.html

O texto que se segue tem o objetivo de estimular idéias sobre o dilema de se desenvolver técnicas psicomotoras, necessárias para cirurgia em medicina veterinária, sem o recurso da “prática” em animais. A intenção não é mostrar um método preciso de como desenvolver essas técnicas mas, sim, de mostrar que é possível obtê-las sem matar animais saudáveis e incitar aqueles que estão encarando esse dilema a expressarem sua oposição, exigindo permissão para que possam trabalhar em direção a uma solução substitutiva.

É preciso que se entenda desde o princípio, que o treinamento cirúrgico que os estudantes de medicina veterinária recebem para poderem se graduar, não faz deles, cirurgiões. Na melhor das hipóteses, para a média dos estudantes isso pode aumentar auto-confiança, já que isso os inicia na complexidade de cirurgia. Entretanto, também existe o potencial de reduzir a confiança dos estudantes devido à confusão e frustração que eles podem vir a experimentar, pela exposição muito limitada que recebem durante o curso. Por outro lado, isso pode inspirar um excesso de confiança, colocando o estudante em séria desvantagem para os pacientes e clientes após a graduação, até que a experiência melhore as habilidades técnicas do recém-formado.

Apesar desses problemas não virem a ser simplesmente transpostos pela instituição de alternativas, algumas delas – como por exemplo, objetos inanimados – podem conduzir a considerável aumento de exposição às técnicas básicas, que são fundamentais para os procedimentos mais complexos (1, 3, 5, 8, 10). Como esses materiais não estão associados ao problema logístico dos cuidados que o uso de animais não humanos requerem, eles podem ser usados, repetidamente, de acordo com a conveniência do estudante.Experiência aumentada com modelos de espuma pneumática para treinamento de suturas e tábuas para treinamento de pontos não podem ajudar mas melhoram a proficiência, desta forma tornando qualquer experiência subsequente com animal não humano vivo muito mais compensatória.(12, 13).

Como um exemplo, na Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual de Ohio (Ohio State University College of Veterinary Medicine), o Dr. Dan Smeak ensinou os estudantes como ligar os vasos sangüíneos usando almofadas de espuma e barbante vermelho para simular incisões. Ele e seus colaboradores observaram que estudantes que praticavam nesses modelos inanimados, saíram-se melhor quando expostos à situação de cirurgia real do que estudantes que aprenderam nos próprios animais (12, 13).

O fato de que, em determinado momento tenha-se que usar animais não humanos para o aprimoramento das técnicas necessárias para se realizar cirurgias, não quer dizer que se tenha que matar propositadamente o animal nesse processo. Com relação a isso, a maneira mais comum pela qual técnicas cirúrgicas são ensinadas para os estudantes de medicina veterinária neste país, é eticamente indefensável. Animais não humanos retirados de abrigos ou comprados de criadores ou negociantes são usados e mortos como se fossem mercadorias descartáveis. Isso está em contraste total com o que acontece em medicina humana, onde os que aspiram a se tornar médicos não matam seres humanos (nem não humanos, como está se tornando realidade cada vez mais crescente), em nome da educação.

A matança de animais não humanos em escolas de medicina veterinária continua, infelizmente, por hábito e conveniência, não porque ela seja pedagogicamente necessária. Há muitas alternativas para substituir a matança de animais não humanos em treino cirúrgico. Lembremos que as escolas de medicina veterinária britânicas usam cadáveres no processo de aprendizado. O fato de que muitos desses formandos britânicos competem com sucesso na qualidade de residentes ou professores universitários neste país ), reflete e evidencia nosso respeito por suas habilidades. Além delas, a Escola de Medicina Veterinária da Universidade de Utrecht, na Holanda, não fere ou mata nenhum animal não humano no treinamento cirúrgico ou para outra prática. O que é particularmente pertinente aqui, é que essa Universidade é totalmente credenciada/reconhecida pela American Veterinary Medical Association (Associação Americana de Médicos Veterinários) – (AVMA).

Entretanto, quando estudantes requerem alternativas para não matarem animais não humanos saudáveis, são recebidos com ridículo e sarcasmo. Seus estilos de vida pessoais têm sido atacados como se absoluta consistência fosse requerida, para que uma premissa moral tenha credibilidade. Algumas faculdades, que aparentemente apenas “ouviram falar” na palavra alternativa, fizeram afirmações sarcásticas rebatendo que ninguém pode aprender cirurgia usando vegetais. Para alguns estudantes também foi dito que deveriam reconsiderar sua escolha como carreira. Esse tipo de comportamento de rebaixar os estudantes é anti profissional e desestimula a busca por métodos alternativos para um ensino mais compassivo.

Qualquer coisa que envolva um animal não humano ou que simule certas formas anatômicas, deveria ser aceita para a aquisição de técnicas básicas como sutura, alguns aspectos de manipulação de tecidos e outros. Isso pode incluir tábuas para treinamento de pontos ou dispositivos mecânicos similares, especialmente quando combinados com informações visuais como fotografias ou vídeos, para serem usados em situações quando a supervisão pessoal seja inconveniente. Modelos simulando vários órgãos também têm mostrado ser praticáveis na preparação dos estudantes para um paciente real.(3,5,6,7,8). Um cadáver tanto pode suprir a necessidade de se aprender Anatomia, quanto a de treinamento cirúrgico. Já há evidências de que os estudantes que treinam em cadáveres desenvolvem a mesma competência e capacidade que aqueles que usam animais vivos . (2, 11, 14).

Deveria ser óbvio que a fonte do cadáver é importante, quando nos propormos às alternativas por razões éticas ou morais. Não deveríamos usar cadáveres de animais vindos de abrigos, por exemplo, se nos opomos a usá-los quando estão vivos, mesmo que os procedimentos sejam terminais (cirurgia onde o animal não sobrevive) o que, portanto, resultaria na mesma consequência para o animal (morte).

É difícil o aprimoramento técnico na manipulação de tecido em hemostase e tecido crítico a não ser que se use o animal vivo. Uma maneira de se conseguir isso é usar pacientes que precisem de cirurgia de fato, sob severa supervisão de um cirurgião mestre. (9) O envolvimento incial do estudante deve ser limitado a tarefas simples como incisão na pele ou sutura. Quando a técnica do aluno for melhorando, ele pode ir aumentando gradativamente o nível de envolvimento, até que esteja apto a fazer os procedimentos mais comuns sem ajuda. Isso significaria mais trabalho por parte dos que estão envolvidos em ensinar treino cirúrgico. Em adição a isso seria desejável, porém não necessário, aumentar a parte clínica do currículo cuja atual média é de menos de um ano, para um período mais longo, para que fosse crescente a participacão dos alunos em cirurgia clínica. Qualquer “desvantagem” que possa ser considerada em relação a esse programa, deveria ser vista num contexto onde o mesmo ajudaria animais não humanos que precisassem de cirurgia e seria eticamente defensável e menos insensível para os estudantes.

Uma alternativa poderia ser o uso de pacientes morrendo de câncer ou outra situação sem esperança. Isto não é, em princípio, muito diferente de desejar os órgãos de alguém para uso depois de sua morte. Após obter permissão do cliente, o paciente seria anestesiado profundamente. Os vários procedimentos seriam feitos e então o paciente seria eutanasiado sem que se permite que ele se recuperasse da anestesia. Deve ser claro que isto não é diferente em qualquer sentido da maneira como é feito com animais saudáveis que são mortos posteriormente. Cuidados pós operatórios podem ser desenvolvidos em qualquer paciente, incluindo aqueles que necessitaram de cirurgia recentemente.

Outra alternativa que não só proveria experiência cirúrgica para os estudantes, como também daria a eles experiência em cuidar de animais após a cirurgia, seria um trabalho cooperativo com abrigos de animais (*e canis municipais). Através de um sistema chamado ” transferência benevolente”, criado pela Michigan Humane Society, animais potencialmente adotáveis seriam transferidos de um asilo local para uma faculdade de medicina veterinária e atendidos pelos estudantes. Exames físicos, procedimentos de diagnósticos e tratamentos, seriam submetidos pelos estudantes, com supervisão de um veterinário experiente. Os animais que ainda não tivessem sido esterilizados, o seriam. Depois que os animais tivessem se recuperado e fosse considerado seguro para eles deixarem o hospital, seriam, então, transferidos de volta para o abrigo. Nas limitadas situações nas quais isso foi feito, o número de adoções desses animais apresentou-se alto. Assim como programas usando pacientes que já têm um guardião humano, esse programa beneficiaria a todos. O aspecto da castração de animais desse programa, agora faz parte do currículo básico da Universidade Estadual de Washington (Washington State University ) e da Universidade da Califórnia (University of California).

A AVMA – American Veterinary Medical Association, que é responsável pelo crédito das escolas de medicina veterinária neste País, não dita a maneira como a cirurgia é ensinada. Esta consideração reside primariamente em assegurar que os estudantes sejam expostos a números suficientes de pacientes, com o objetivo de adquirir uma base experimental que lhes proverá o aprendizado continuado após a formatura. Conforme mencionado, eles creditaram ao menos uma escola que não prejudica ou mata animais não-humanos em seus programas. Ainda que às vezes usados como razão para rejeitar as alternativas, pode-se ver que qualquer argumentação quanto aos problemas de crédito do AVMA é vago.

Como a maioria das escolas de medicina veterinária americanas usa cães e gatos vindos de abrigos, é apropriado se endereçar essa questão no que diz respeito ao treino cirúrgico. O pensamento que impera é que já que esses cães e gatos serão mortos de qualquer maneira, por que não utilizá-los num contexto onde a morte deles tenha um significado? Se isso fosse tão simples, seria ilógico discutir contra . Há, entretanto, muitos fatores que fazem do uso contínuo de animais de abrigos para treino cirúrgico, um problema, sem considerar que os animais, na verdade, teriam sido mortos no mesmo dia em que se realizaria o laboratório de cirurgia.

Uma das razões mais fortes para não se usar animais de abrigos ou canis públicos é que isso institucionaliza nossa dependência dessa fonte , que deveria diminuir e que todos deveriam estar se esforçando para prevenir.Todos hão de concordar que a superpopulação de gatos e cães, com a presença maciça de indivíduos excedentes, é uma doença social por causa da irresponsabilidade humana.Se, entretanto, manter animais em abrigos e canis é necessário para lecionar, é improvável que se direcione esforços para acabar com essa situação. O conflito de interesses poderia ser muito grande.

Outra razão forte para se interromper o uso de animais abandonados é que esse uso provoca confusão e insensibilidade nos estudantes e no corpo docente. Não há diferenças morais relevantes entre os cães que estão nos abrigos e canis municipais e aqueles que possuem um guardião humano. Cães de ambos os grupos têm a capacidade de sofrer e de gozar a vida da mesma forma. O argumento de muitos que apóiam o uso de animais derivados dessas fontes de que no fim “esses animais vão morrer de qualquer jeito”, ignora totalmente o princípio da questão. Os veterinários deveriam ter a mais alta sensibilidade pela vida não humana e deveriam cultivar e incentivar a reverência pela vida naqueles que aspiram a se tornar veterinários. Ver e usar animais como uma simples ferramenta sem nenhuma consideração por suas vidas é a antítese desse princípio.

Outra consideração é o estresse causado nos cães e gatos durante o transporte do abrigo ou canil até a escola.Embora isso não seja muito de ser observado por humanos, é necessário que nos projetemos em outras situações com animais. Já tendo sido capturado e transportado para um lugar estranho, por um estranho, ser transportado mais uma vez, por estranhos, indubitavelmente causa stress no animal. Os animais em questão não sabem, como um humano observador saberia, que a viagem acaba. Se isso estivesse sendo feito pelo bem desses animais, como no caso da transferência benevolente, alguém discutiria que qualquer strees adicional excederia em importância pela perspectiva de uma longa vida em um bom lar. Entretanto, se preocupar com stress desses pode parecer “desperdício” no que é considerado melhor para o animal, quando a morte é o destino deles.

Por fim, é um pobre argumento se discutir que os animais derivados de “depósitos de animais” são ” marcados para morrer” . Somente os cães mais sociáveis e dóceis são escolhidos para uso em laboratório cirúrgico.Esses indivíduos também teriam altas probabilidades de serem adotados se existissem recursos disponíveis para mantê-los à espera de adoção por um período mais longo. Dizer, portanto, que esses animais iriam morrer de qualquer maneira, ignora o fato de que sua sentença é pesadamente imposta por considerações financeiras e logísticas.A situação piora quando há uma instituição pronta e interessada em comprar em esses animais.

Para concluir, não há razões pedagógicas para que animais não humanos tenham que passar por uma desnecessária cirurgia seguida de morte, para se ensinar os principios de cirurgia para estudantes de medicina veterinaria ou outras. Alternativas humanitárias estão disponíveis e requerem apenas uma mudança de mentalidade para a sua viabilizacao (4). Legalmente, estudantes não podem ser forçados a ferir ou matar animais não humanos como parte de sua educação. Ha amplo precedente para isso. Mas vai requerer, entretanto, esforcos contínuos por parte dos estudantes no sentido de persuadir os professores a providenciarem um programa alternativo nas escolas. Isso pode ser muito intimidante. Ganhe coragem,entretanto, no fato de que nada que os professores possam fazer de ruim pra você, será pior do que o que eles esperam que vc faça aos animais.

—————————————————————————————-

**Nota do tradutor – Nos Estados Unidos, onde vive o autor do texto, a palavra Shelter é usada para definir abrigos para onde se leva animais abandonados, seja por entidades de proteção aos animais , seja pelas prefeituras. Com raríssimas excessões, em ambos os animais ficam por um tempo e se não são adotados, são sacrificados.

Bibliografia do Autor:

1 – Buyukmihci, Nedim C.: Alternatives to the Harmful use of Non-human Animals in Veterinary Medical Education. The Association of Veterinarians for Animal Rights, 37 pp., 1998.

2 -Carpenter, L.G., Piermattei, D.L., Salman, M.D., Orton, E.C., Nelson, A.W., Smeak, D.D., Jennings, P.B. and Taylor, R.A.: A comparison of surgical training with live anesthetized dogs and cadavers. Veterinary Surgery 20: 373-378, 1991.

3-Greenfield, Cathy L.; Johnson, Ann L.; Arends, Mark W. and Wroblewski, Andrzej J.: Development of parenchymal abdominal organ models for use in teaching veterinary soft tissue surgery. Veterinary Surgery 22 (5): 357-362, 1993 (September-October).

4 -Greenfield, C.L.; Johnson, A.L.; Smith, C.W.; Marretta, S.M.; Farmer, J.A. and Klippert, L.: Integrating alternative models into the existing surgical curriculum. Journal of Veterinary Medical Education 21 (1): 23-27, 1994 (Spring).

5.Greenfield, Cathy L.; Johnson, Ann L.; Schaeffer, David J. and Hungerford, Laura L. Journal of the American Veterinary Medical Association 206 (12): 1840-1845, 1995

6.Holmberg, D.L.; Cockshutt, J.R. and Basher, A.W.P.: Use of a dog abdominal surrogate for teaching surgery. Journal of Veterinary Medical Education 20 (2): 61-62, 1993 (Fall).

7.Holmberg, David L. and Cockshutt, Joanne R.: A non-animal alternative for teaching introductory surgery. Humane Innovations and Alternatives 8: 635-637,

8.Johnson, Ann L. and Farmer, James A.: Evaluation of traditional and alternative models in psychomotor laboratories for veterinary surgery( Journal of Veterinary Medical Education 16 (1): 11-14, 1989 (Spring).

9.Johnson, Ann L. and Farmer, James A.: Teaching veterinary surgery in the operating room. Journal of Veterinary Medical Education 17 (1): 10-12, 1990 (Spring).

10.Johnson, A.L.; Harari, J.; Lincoln, J.; Farmer, J.A. and Korvick, D.: Bone models of pathological conditions used for teaching veterinary orthopedic surgery. Journal of Veterinary Medical Education 17 (1): 13-15, 1990 (Spring).

11.Pavletic, Michael M.; Schwartz, Anthony; Berg, John and Knapp, Deirdre: An assessment of the outcome of the alternative medical and surgical laboratory program at Tufts University. Journal of the American Veterinary Medical Association 205 (1): 97-100, 1994 (1 July).

12.Smeak, D.D.: Simulator/media based teaching of basic surgical skills. Proceedings of the First Annual International Foundation for Ethical Research Workshop: Alternatives to Live Animals in Veterinary Medical Education: 10-12, 1989.

13.Smeak, D.D., Beck, M.L., Shaffer, C.A. and Gregg, C.G.: Evaluation of video tape and a simulator for instruction of basic surgical skills. Veterinary Surgery 20: 30-36, 1991.

14.White, K.K., Wheaton, L.G. and Greene, S.A.: Curriculum change related to live animal use: A four-year surgical curriculum. Journal of Veterinary Medical Education 19: 6-10, 1992

 

Anúncios