Entrevista – Tom Regan

 

Tom Regan – Bioeticista americano, autor do livro “Direitos dos Animais”. 

A assunção de que os animais têm direitos tem sido apontada como o próximo desafio ético.
Tom Regan: A UE (União Européia) abolirá em breve as gaiolas de bateria, as celas individuais para porcas reprodutoras e a, Inglaterra, muito possivelmente, a caça à raposa. Impensável há 30 anos, quando comecei. E, quanto mais as pessoas assumem que o consumo de carne é mau para os animais como sujeitos de uma vida que lhes é negada, mau para a saúde e o ambiente, mais avanços veremos. Sou otimista.

Há quem se recuse a admitir a idéia. Pode dizer por quê?
Tom Regan: Stuart Mill escreveu que todos os grandes movimentos passam por três fases: ridicularização, discussão, adoção. Estamos na fase de discussão. Há, obviamente, quem ridicularize, o que indicia uma enorme dúvida acerca do valor da sua própria vida.

Como explicar a indiferença perante o sofrimento?
Tom Regan: Educação, sexo, papéis e expectativas sociais não lhe serão alheios, mas a um nível mais profundo penso que se prenderá com uma “insegurança cósmica”. Os animais são bode expiatório das nossas inseguranças.

O sistema de valores e de práticas que temos impede-nos de os olhar na sua individualidade?
Tom Regan: Para alguns será mais fácil não investir emocionalmente numa vida em particular. Perante um animal em particular, somos levados a pensar no que fazer para o ajudar, como agir. Na raiz do movimento pelos direitos dos animais está, no fundo, isso: “Eu preocupo-me e vou fazer alguma coisa”. E isso exige trabalho, tempo e que mudemos a nossa vida. Pensemos nisto: houve um esforço para dar melhores condições aos animais, mas isso não mudou o que está errado no fundamento: estamos a abatê-los a uma escala jamais vista. Imprimir um rosto mais humano à injustiça é prolongá-la, torná-la mais aceitável. Retardará a mudança.

A mudança é palavra-chave.
Tom Regan: O melhor que podemos fazer é deixarmos de os explorar, cessando formas específicas de exploração. Nos EUA, os animais estão a ser usados em experiências no campo do vício das drogas, no campo do tabaco, entre tantas outras. Para derrubar essa parede, há que fazê-lo tijolo a tijolo.

As pessoas ficam chocadas, mas, muitas vezes, não mudam o seu comportamento…
Tom Regan: É verdade, podem dizer “Meu Deus, é horrível!” e não mudar. O fosso entre saber e agir tem de ser preenchido pela empatia, pelo imaginarmos que vida de desespero seria se essa fosse a nossa vida. E que nada mudará se não agirmos. Muitas pessoas preocupam-se com o seu cão, mas não com outros cães, outros animais. E, no entanto, eles existem – nos matadouros, nos laboratórios -, mas não existem. Há que tornar visível o que é “invisível”.

Há quem mude, por vezes inesperadamente.
Tom Regan: Há quem nasça com empatia, como São Francisco. Outros serão como São Paulo, que, na estrada para Damasco, boom, se transformam! Conheço pessoas assim, que mudaram ao ver algo de terrível acontecer a um animal. Poderão ter ido a um matadouro – aconselho todos a fazê-lo – e, nesse choque, tudo mudou. Noutros, o processo é gradual.

Existe forte ligação entre a violência exercida sobre os animais e a violência interpessoal. A mesma, na sua essência?
Tom Regan: A ligação existe. Por outro lado, julgamos que a violência partirá de um estranho, mas ela dá-se, sobretudo, na família. Donde vem essa epidemia de violência? Creio que a permissividade face à violência que exercemos sobre os animais, uma violência institucionalizada, a alimenta em larga medida. Haverá algo mais violento que ser eventrado? O gado é eventrado; há animais em laboratório cegados para testar um produto ou nos quais se induziram tumores. Nunca falamos disso como violência.

A tradição tem sido apontada como razão para determinadas práticas. Qual a sua visão?
Tom Regan: É uma parte valiosa da cultura humana. Mas isso não significa que seja, necessariamente, sábia, boa e justa. As piores formas de aviltamento da vida humana foram defendidas em seu nome – como a escravatura na América. Pensemos na tourada em Portugal: tradição? Sem dúvida; sábia, boa e justa? Penso que não. É, porém, fácil fazer destas práticas bode expiatório de todos os males que afligem os animais. E a ajuda mais importante é deixarmos de os comer – nos EUA, nove bilhões por ano são mortos para esse fim. Não temos a noção da real dimensão desses números.

O estudo destas questões é hoje reconhecido e prestigiado em vários países. A tal mudança?
Tom Regan: Não há hoje uma única universidade nos EUA onde os direitos dos animais não sejam discutidos, em filosofia, antropologia, sociologia. Produziu-se uma massa crítica, reputada, a favor e contra. Não se voltará atrás.

Entrevistadora: Maria João Pinto

Entrevista originalmente publicada em Diário de Notícias (09 de Julho de 2001)
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