Entrevista – Peter Singer

O filósofo australiano Peter Singer vem ao longo dos últimos trinta anos tentando realizar na prática o que para muitos não passa de mera utopia: diminuir a quantidade de sofrimento no mundo. Tarefa que fez de Singer um dos mais polêmicos e influentes filósofos vivos. Polêmico, sua indicação para professor de bioética da University Center for Human Values na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, gerou diversos protestos nos portões do velho campus. Sua defesa do direito ao aborto e à eutanásia, lhe renderam o título de “doutor morte” e “o homem mais perigoso do mundo”.

Singer defende, entre outras coisas, a igualdade entre “animais humanos e não-humanos”, com base na capacidade que ambos têm de sofrer. Argumento que está na origem de seu vegetarianismo. Singer também considera a capacidade de fazer planos para o futuro, relacionar-se e pensar sobre a própria existência. A ética prática de Singer também ecoa em outros campos, como na ecologia e na desigualdade social. Ele defende que os países ricos têm a obrigação de ajudar os pobres e que cada um de nós é responsável por pessoas que neste momento estão morrendo de fome.

Singer também faz comentários à ética de George W, Bush, tema de seu último livro, The President of Good and Evil (ainda sem tradução para o português). No Brasil foram publicados os livros Ética Prática (Martins Fontes), Vida Ética (Ediouro), Hegel (Loyola), Marx (Loyola), Libertação Animal (Lugano) e Um Só Mundo: A Ética da Globalização(Martins Fontes), esses três últimos lançados no ano de 2004.

Sempre muito atencioso, Peter Singer nos recebeu com grande entusiasmo e diz que o Brasil tem um papel fundamental em questões importantes como o tratamento aos animais e nas questões ambientais.

O que o levou à bioética? Como a questão da ética ligada aos animais surgiu no seu trabalho?
PS: Primeiramente, eu estava empenhado em aplicar a ética como uma idéia que, no meu ponto de vista filosófico, devesse ter alguma relevância para o mundo real – isto é, que pudesse fazer diferença. Então em um estágio primário, antes da palavra “bioética” ser utilizada, eu estava interessado em assuntos éticos como o aborto e a eutanásia voluntária. E, quase que por acidente, enquanto fazia meus estudos de graduação em Oxford, encontrei um grupo de pessoas que eram vegetarianos por razões éticas. As conversas com essas pessoas guiaram meu pensamento sobre o estatuto moral dos animais.

Qual a contribuição da bioética para os animais?
PS: Existem muitas pessoas que se preocupam com os animais, mas eu penso que a entrada de filósofos e bioeticistas neste campo faz as pessoas verem que não é apenas por um sentimentalismo, ou amor aos animais, que devemos tratar os animais de forma diferente. A forma como nós tratamos os animais é um assunto moral, da mesma forma como a luta contra o racismo e o sexismo (machismo) são assuntos morais.

O senhor defende a ética prática aplicada, como isso ocorre? Qual a interferência da ética no nosso cotidiano?
PS: É muito relevante nos dias de hoje a questão ética de como nos alimentamos com animais e, especialmente, como os animais são criados em “fazendas industriais”, muito comum na atualidade. Similarmente, se pensarmos sobre as obrigações das pessoas que vivem confortavelmente em relação àqueles que vivem em probreza extrema, devemos ser levados a dividir um pouco de nossa riqueza com essas pessoas menos favorecidas, através de organizações não governamentais como a Oxfam International.

O senhor fala no especismo. Para quem ainda não sabe, o que é o especismo e como ele está inserido em nossa cultura?
PS: O especismo é uma ação preconceituosa contra um membro de outra espécie, como o racismo é um preconceito relativo a membros de outras raças. Por exemplo, os seres humanos são especistas quando dão peso menor ao sofrimento de animais não-humanos do que o sofrimento equivalente em outros seres humanos.

O seu livro Libertação Animal, lançado em 1975 e publicado pela primeira vez no Brasil este ano, foi um marco no movimento de defesa dos animais. Como surgiu a idéia do livro e quais foram as mudanças ocorridas no tratamento dos animais não humanos desde a sua primeira edição em 1975 até hoje?
PS: A idéia do livro surgiu como resposta às cartas que recebi após publicar um artigo sobre animais no The New York Review of Books em abril de 1973. Recebi apoio de um editor que me encorajou a transformar o ensaio em livro. São muitas as mudanças na maneira como são tratados os animais não humanos desde então, mas é claro com variações entre países. Por exemplo, na maioria dos países, os cosméticos não são mais testados em animais; há um teste horrível em especial, conhecido como LD50, o qual descrevi no livro, que também hoje é raramente usado. Mas as mudanças mais importantes estão acontecendo na União Européia, onde muito dos piores abusos nas fazendas industriais estão em desuso. Isto inclui um curral individual para a criação de bezerros para vitela, e também para as porcas prenhes, assim como o padrão de gaiolas para galinheiros. (Maiores detalhes desses abusos podem ser visto no livro Libertação Animal).

O senhor defende o vegetarianismo. Quais são os fundamentos éticos da sua defesa?
PS: O argumento ético é muito simples. Uma vez entendido que os animais são capazes de sofrer, não há justificativa em fazê-los sofrer, a menos que seja para evitar um sofrimento ainda maior. Mas para nós que temos uma grande variedade de alimentos além da carne, não há necessidade de fazer os animais sofrerem para termos uma boa saúde. Infelizmente, todos os processos de criação de animais utilizados para a alimentação negligenciam os interesses dos animais e os fazem sofrer desnecessariamente. Então, já que nós não precisamos comprar esses alimentos para termos uma vida saudável, nós devemos boicotá-los.

A defesa dos animais não-humanos o levou à defesa de uma dieta vegetariana. Como teve essa relação entre o vegetarianismo e o movimento em favor dos animais não-humanos repercussão na discussão do meio ambiente?
PS: Também existem grandes benefícios ambientais em uma dieta vegetariana. Na maioria das culturas agrícolas, utiliza-se menos energia, menos água e menos terra cultivável, para produzirmos alimentos para o nosso consumo do que na produção de animais. Muitos ambientalistas são vegetarianos também, independentemente dos argumentos em favor dos direitos dos animais.

A questão ambiental é muito discutida hoje. Como o senhor vê a bioética atuar nesse campo?
PS: Existem muitos assuntos éticos que cercam a questão ambiental. Talvez o mais urgente é o aquecimento global. Eu escrevi sobre esse assunto no meu livro Um Só Mundo: A Ética da Globalização. Infelizmente, muitas pessoas nos Estados Unidos, não vêem esses assuntos como parte das discussões éticas. Mas são! Os Estados Unidos estão usando muito mais do que sua “cota” dos recursos que pertencem a todos nós (isso em relação à capacidade da atmosfera de absorver os gases que utilizamos). É como se uma única pessoa comesse 1/3 de uma torta que pertence a todos nós. A preservação da vida selvagem, e muitos outros animais não-humanos que vivem na Terra também é uma importante questão ética.

O seu livro mais recente (ainda inédito no Brasil) The President of Good and Evil faz uma análise da política e dos discursos do Presidente Bush. Como devemos encarar esses discursos? Existe algum embasamento ético-filosófico por trás das ações e discursos do Presidente Bush?
PS: George W. Bush constantemente faz discursos sobre o que ele vê como certo, ou bom, e o que ele vê como errado, ou mau. Estes são juízos éticos. Freqüentemente, baseiam-se em argumentos éticos – tais como por que é errado destruir embriões humanos, se é justo o corte de impostos, ou por que os Estados Unidos não devem assinar o Protocolo de Kyoto. E, é claro, na decisão de fazer guerra contra o Iraque. Nenhum outro especialista em ética tem considerado os argumentos que Bush expõe. Esse fato me levou a escrever o livro de imediato. Em meu ponto de vista, Bush não tem uma posição ética coerente, e em suas ações ele não mantém a posição ética declarada em seus pronunciamentos.

Nessa mesma linha de raciocínio, o que devemos fazer em relação ao terrorismo e as ações, como a de empresas multinacionais, que provocam a morte de milhares de pessoas por inanição?
PS: Terrorismo é crime, e deve ser tratado como tal. Nós precisamos de ações internacionais melhores contra o terrorismo. Mas a guerra no Iraque não tem nada a ver com o terrorismo. Os Estados Unidos devem sair do Iraque o mais rápido possível. Eu penso que as tropas americanas estão dificultando ainda mais o governo interino do Iraque a estabelecer sua credibilidade. Isso não justifica os radicais que refutam a participação democrática no processo como todos queremos ver.

O processo de globalização tem trazido conseqüências positivas e negativas em todas as áreas. Em relação à economia, como fica a questão da ética? E sobre o impacto no meio ambiente?
PS: Essa é uma grande questão. Eu dediquei um livro inteiro a esse assunto. Mas, como disse anteriormente, todas as nações devem buscar reduzir emissões de gases, mas especialmente os países com altas taxas de emissões per capita como os Estados Unidos e a Austrália.

Qual a saída para diminuir as diferenças entre os países ricos e pobres? Em relação a essa questão, o que podemos fazer no cotidiano?
PS: Eu acredito que todos nós, que vivemos numa confortável classe social, temos obrigação de assistir àqueles que são menos afortunados do que nós. Acredito que com planejamento cuidadoso de alocação de recursos para a ajuda internacional, podemos aliviar a pobreza mais grave. Se as nações desenvolvidas do planeta têm dado um auxílio muito pequeno – menos de 1 centavo para cada dólar que ganham -, imagine o que poderemos fazer se dermos 10% daquilo que ganhamos para o combate à pobreza! Já que este é um longo caminho para convencermos os governos a fazer isto, eu penso que cada um de nós tem a obrigação de dar uma quantia equivalente – 10% pode ser um bom começo – para organizações que sejam eficientes no combate à pobreza. Lembre-se, se você pode gastar dinheiro comprando uma Coca-cola ou outra bebida qualquer, quando você pode se satisfazer tomando água sem gastar para isso, você está vivendo um luxo que 800 milhões de pessoas no planeta só podem sonhar em fazer.

Em seu livro Um Só Mundo: A ética da globalização o senhor aborda quatro tópicos principais, todos eles de interesse global – as mudanças climáticas, o papel da Organização Mundial do Comércio, a relação entre direitos humanos e intervenção humanitária e a ajuda externa. Quais sãos as perspectivas nesses campos?
PS: Meu interesse neste livro é mostrar todos esses assuntos numa perspectiva ética. Mas para dizer mais eu teria que me estender muito a ponto de quase re-escrever o livro, o que no caso, não há como fazer em tão pouco tempo.

No Brasil, nos últimos 6 meses, dois de seus livros foram lançados (Libertação Animal e Um Só Mundo). O senhor acha que isso reflete um “despertar” dos brasileiros para esses assuntos?
PS: Sim, eu certamente espero que esses assuntos estejam sendo despertados no Brasil, em especial nos tópicos sobre a Libertação Animal, e as obrigações dos ricos para com os pobres.

Qual a importância do Brasil na Ética Globalizada? E em relação ao movimento de Libertação Animal?
PS: O Brasil é um grande e importante país que produz muitos animais para a alimentação, e tem muitas pessoas muito ricas assim como muitas pessoas muito pobres. Além disso, o Brasil tem recentemente sido o líder de um grupo que tenta fazer da OMC mais justa para os países em desenvolvimento. A vitória no caso contra os subsídios ao algodão são importantes quebras de barreiras, e eu espero que muitas outras virão. Esses são assuntos importantes que devem ser discutidos no Brasil.

As suas propostas causam muita polêmica. Por quê? O que o senhor acha que impede as pessoas de aceitarem, ao menos para discutir, suas propostas?
PS: Eu tenho procurado pensar de um jeito muito diferente em relação às mudanças do ponto de vista da ética tradicional, geralmente baseado em ensinamentos religiosos, o que é focado em especial é o estatuto moral dos seres humanos. E, por exemplo, o meu ponto de vista sobre a pobreza é provável que deixe muitos de meus leitores desconfortáveis. Por isso, não me surpreende que as minhas perspectivas originem muita controvérsia.

O senhor foi um dos fundadores da International Association of Bioethics. Como isso ocorreu e como o senhor vê o panorama da bioética atual?
PS: Eu fundei a IAB, ao lado de Helga Kuhse e Dan Wikler, porque sentia a necessidade de uma organização que unisse as pessoas que faziam a bioética no mundo todo. Nós queríamos realmente uma internacionalização, e não uma dominação pelos Estados Unidos, como era a bioética na época em que fundamos a IAB. Além disso, como alguém cujo ponto de vista tinha sido suprimido na Alemanha, onde tive alguns convites de palestras cancelados por causa do meu ponto de vista, eu sentia que seria importante uma associação internacional que pudesse trabalhar pelo direito de expressão dentro da bioética.

Alguma mensagem para os brasileiros?
PS: Como eu disse, o Brasil é um país que terá um importante papel no futuro. Eu espero que os brasileiros contribuam para fazer um mundo mais justo e melhor, para humanos e animais. Mas para atingir essa meta, o Brasil deve fazer mais para superar a pobreza e o abuso de animais em seus limites. Eu espero que meus leitores no Brasil – os que são das classes mais ricas – não se contentem em deixar esse trabalho para o governo, mas que dêem seus próprios passos para reduzir o abismo entre ricos e pobres em seu próprio país. E fazer do Brasil um país que cuida dos animais não-humanos da mesma forma que cuida dos seres humanos.

Entrevistador: Fábio Coltro

Publicado originalmente na revista Cult – 3 de Novembro de 2004
Fonte:
www.criticanarede.com