Entrevista – Nina Rosa Jacob

Dificilmente hoje, numa roda de pessoas ligadas ao movimento ambiental, deixará de surgir alguma menção ao documentário “A Carne é fraca”. Produzido pela ONG Instituto Nina Rosa, com sede em São Paulo, o trabalho é uma ode em defesa do vegetarianismo. Entre os argumentos utilizados para a mudança de hábitos alimentares, está que, ao abster-se de ingerir carnes de qualquer tipo, cada pessoa contribuiria também para a preservação do meio ambiente.

A fundadora e presidente da ONG, Nina Rosa Jacob, não é a primeira a associar consciência ambiental à adoção de uma dieta vegetariana. Não será também a última. A diferença é que, num pragmatismo ímpar, sua equipe formatou imagens e depoimentos que tornam o documentário extremamente eficaz em seus objetivos. Já foram vendidos mais de três mil exemplares e, para quem o assiste, bifes e afins ganham um novo e desta vez incômodo sabor: o da culpa.

AmbienteBrasil – Como nasceu a idéia de “A Carne é Fraca”?

Nina Rosa Jacob – Nosso trabalho é de pesquisa e informação. Quando mudei minha alimentação para vegetariana, em 1976, e posteriormente para a postura vegana, fiquei tão agradecida de alguém ter me aberto os olhos para que eu pudesse optar! Quisemos oferecer as informações para que “todas” as pessoas pudessem ter a liberdade consciente de escolha. Exemplificando, cito Mahatma Gandhi quando diz “se não procurarmos a verdade, nunca poderemos chegar à justiça”. O objetivo final do projeto é abolir a utilização de animais para consumo – e conseqüentemente diminuir a violência no Planeta – por meio da sensibilização das pessoas para a forma de como e porque são criados os animais, os impactos que essa prática provoca no meio ambiente e na saúde humana e convidar à reflexão sobre se ela é uma necessidade ou um hábito… e se queremos continuar a patrocinar essas crueldades de livre e espontânea vontade.

AmbienteBrasil – O documentário traz imagens muito fortes – já houve gente relatando que chegou à ânsia de vômito. Como o Instituto conseguiu produzi-las? Em quanto tempo foram feitas as filmagens?

Nina Rosa – O maior tempo foi dedicado à pesquisa e à captação de imagens das entrevistas. Com relação às “imagens fortes”, elas são absolutamente verídicas. Apenas mostramos o que acontece nos frigoríficos-modelo 365 dias por ano e é considerado abate humanitário. (Nem queiram saber dos métodos utilizados nos abates clandestinos…). Denise, diretora do vídeo; Rita, veterinária-vice presidente do Instituto Nina Rosa e eu gravamos o trabalho corriqueiro, comum, diário, das pessoas naquelas empresas, com a devida autorização para fazermos documentário sobre a cadeia produtiva de alimentos. Penso que para trabalhar em frigoríficos ou granjas de criação, só ligando o piloto automático e negando-se a pensar e a sentir. Os empresários do setor vêem os animais como produtos e muitos provavelmente nem pensam que eles são seres vivos, sencientes, que também sentem medo, angústia e dor.

AmbienteBrasil – O documentário já está sendo distribuído também em locadoras. Como tem sido essa procura? E a repercussão?

Nina Rosa – A procura tem sido muito grande, em todo o Brasil, seja para locar ou comprar; e a repercussão, enorme. Diariamente recebemos depoimentos de pessoas e de famílias inteiras mudando seus hábitos. Seja pelos animais, seja pelo meio ambiente, seja pela própria saúde, seja por todos esses motivos juntos. Uma das frases que mais ouvimos é: “agora que eu sei, nunca mais quero participar disso”. Pessoas físicas, jurídicas, do Brasil e do exterior, têm feito exibições espontâneas, para amigos ou abertas ao público – SOS Mata Atlântica, Centro Cultural Banco do Brasil, Yoga de Rose, Trigueirinho, Movimento Adventista, entre muitos outros. Alguns canais de TV fechada têm divulgado também. TV Câmara, TVA e Net pela União Planetária são alguns de que temos conhecimento.

AmbienteBrasil – À parte dos sacrifícios impostos aos animais, “A Carne é Fraca” aponta reduções de impactos ambientais a partir da opção pelo vegetarianismo. Quais são elas?

Nina Rosa – O desmatamento e posterior queimada para fazer pastos, para plantar soja e outros grãos para alimentar a enorme quantidade de animais (os mesmos grãos poderiam estar alimentando pessoas); o pisoteamento das beiras de rios pelo gado, provocando o assoreamento; a enorme quantidade de água doce para manter animais criados em grande quantidade para consumo (suínos, bovinos, ovinos e aves) e outros como cavalos, avestruzes… E a poluição das águas pelos dejetos dos animais; contaminação dos lençóis freáticos e aquíferos subterrâneos por remédios e hormônios usados nas criações, entre outros.

AmbienteBrasil – Muitos médicos apontam nutrientes que, segundo eles, só se encontram na carne vermelha, não havendo substitutos no reino vegetal. Esses nutrientes não fazem falta, sobretudo na idade do crescimento?

Nina Rosa – Prefiro que essa resposta seja fornecida por técnicos, com embasamento científico. Esse foi o motivo por termos entrevistado médicos e pediatras que não indicam proteína animal na dieta dos pacientes já há muitos anos. Tenho minha experiência pessoal, de ser vegetariana há 29 anos e vegana há aproximadamente 10 anos. Ouvi depoimentos de pessoas que nunca ingeriram carne, nem na barriga da mãe, e hoje já são avós. Quando solicitados sobre o assunto, sugerimos consultar um nutricionista, como por exemplo o Dr. George Guimarães (www.nutriveg.com.br) ou um médico, como por exemplo o Dr. Marcio Bontempo (www.portalbontempo.com.br ).

AmbienteBrasil – Admitindo-se hipoteticamente que a população brasileira adote o vegetarianismo. Em que outro nicho de mercado poderiam se encaixar os milhares de trabalhadores hoje empregados em granjas, matadouros, fazendas de pecuária de corte e de leite e em indústrias alimentícias de produtos para carnívoros?

Nina Rosa – A agricultura familiar seria uma das opções. As grandes capitais já não suportam mais tantas pessoas que se deslocam do interior em busca de melhor qualidade de vida e encontram situação pior do que a anterior: miséria, penúria, violência, preconceitos… Com o aumento do consumo humano de grãos, legumes, vegetais entre outros, a agricultura familiar poderia ser a solução da fome no Brasil, onde as famílias ao menos teriam seu próprio alimento, fresco e mais saudável. Para isso teria que haver um incentivo para o pequeno agricultor e a valorização do campo com escolas, hospitais e recreação sadia. O Brasil é um país extenso em terras produtivas, não faz sentido que grande parte de sua população venha passar fome nas capitais. É necessário haver também vontade política. E isso depende em muito da vontade da população votante e participativa. Segundo depoimento do jornalista Washington Novaes , “em uma década (1992 a 2002) mais de 3 milhões de empregos foram fechados na agricultura. E quem gera trabalho é a agricultura familiar e não o agronegócio”. E diga-se de passagem, empregos bem mais saudáveis, pois plantar é indiscutívelmente mais saudável do que matar.

AmbienteBrasil – Muitos argumentam que bois, frangos, porcos etc são criados já com o fim de alimentar os seres humanos, o que os diferencia de animais selvagens e/ou silvestres, cuja proteção é defendida por estas mesmas pessoas. Como a senhora avalia tal entendimento?

Nina Rosa – Até pouco tempo atrás se considerava que os negros escravos não tinham alma, nem direitos. Afinal, eles eram criados para ser escravos… Lógico que esses conceitos e idéias provêm dos que estão lucrando com o agronegócio. Será que uma criança da Nigéria tem direitos e necessidades diferentes de uma criança de qualquer outra nacionalidade ou cor? Todas sentem fome, medo, dor, igualmente. O mesmo com todas as espécies de animais sencientes, das quais fazemos parte.

AmbienteBrasil – Essa opção alimentar não cria alguns problemas de convívio social, tendo em vista que uma das confraternizações preferidas dos brasileiros ocorre no entorno de uma churrasqueira?

Nina Rosa – Em torno de uma churrasqueira você pode assar cebolas, batatas, alguns tipos de pães, vários tipos de legumes e outros alimentos mais. Não sou expert, porque não gosto de churrasqueiras. Porque não se reunir ao lado do forno de pizza, ao invés da churrasqueira? Sabemos que a digestão da massa é bem mais natural do que a da carne, lenta e pesada em vários sentidos. Será que sentar-se em torno de uma churrasqueira para assar cadáveres é tão imprescindível assim? Sabemos por estudos estatísticos do FBI e da HSUS que a violência contra animais precede a violência contra humanos. Patrocinar vida e morte cruéis não é uma violência? Para tudo há que haver vontade e motivos. Nós fornecemos os motivos, mas a vontade é individual.

AmbienteBrasil – A parte que trata de alimentação no site do Instituto Nina Rosa condena até a ingestão dos produtos apícolas. Em que momento comer mel representaria uma crueldade contra as abelhas?

Nina Rosa – O texto explicativo é extenso, vou apenas transcrever que “por serem vistas voando livres, as abelhas são consideradas isentas das crueldades comuns na indústria agrícola. No entanto, elas passam por rotina de exames e manejos, regimes alimentares artificiais, drogas e tratamentos por pesticidas, manipulação genética, inseminação artificial, transporte (por ar, trilhos ou estradas) e morte. As abelhas rainhas são inseminadas artificialmente com esperma obtido de abelhas decapitadas. Têm as asas cortadas para prevenir os enxames, que são a maneira natural de reprodução…” Francamente, prefiro o melado de cana!

AmbienteBrasil – Quais são hoje as principais bandeiras do Instituto Nina Rosa?

Nina Rosa – Nosso propósito é sempre pesquisar e informar para oferecer liberdade de escolha consciente. No momento estamos finalizando o documentário “Vida de Cavalo” que inclui também burros e jegues com a intenção de fazer conhecer e assim valorizar esses animais e melhorar a vida deles. Temos serviço de atendimento telefônico pela valorização da vida animal, onde junto com o solicitante, procuramos soluções para problemas envolvendo animais. Trabalhamos pela ciência responsável sem utilização de animais vivos; enfim nosso trabalho é bem abrangente, onde todas as espécies são incluídas, inclusive a humana, pois contribuímos para uma sociedade mais justa e pacífica.

AmbienteBrasil – A senhora diz, em sua apresentação no site do Nina Rosa: “Já fui fumante, onívora e bem menos consciente da minha responsabilidade de ser humano do que sou hoje.” O que levou-a a essa transformação?

Nina Rosa – Com relação ao vegetarianismo, a transformação veio, objetivamente, com a frase de uma pessoa com quem me encontrei para almoçar, quando, ao olhar o cardápio, ela disse: “não como carne, pelos animais”. Nesse momento caiu a ficha. Nunca mais comi carne e sou eternamente grata a ela apesar de nunca mais tê-la visto. Subjetivamente, internamente, acredito que estava aberta a expandir minha consciência. Com relação à consciência, nunca havia pensado na enorme responsabilidade de nossas escolhas, nossos atos, na influência que eles têm no mundo. Hoje tenho clareza de que somos exemplos, durante o tempo integral de nossas vidas.

Entrevistadora – Mônica Pinto / AmbienteBrasil

Fonte: http://www.ambientebrasil.com.br/
Dezembro/2005

 

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