Entrevista – Dener Giovanini


Dener Giovanini é ambientalista e atualmente é o Coordenador Geral da RENCTAS – Rede Nacional de Combate ao Tráfico de Animais Silvestres. Participou ativamente de importantes ações ambientais no Brasil, como a fundação do Partido Verde no país em 1987 e a Eco 92 no Rio de Janeiro. Coordenou diversos projetos de conservação ambiental e possui várias publicações sobre o tema. Foi eleito Empreendedor Social Notável pelas mais importantes instituições mundiais nesta área, a Ashoka Empreendedores Sociais e Schwab Foudation. Possui diversos prêmios e distinções pelo seu trabalho na proteção da biodiversidade brasileira. 

Qual o maior desafio no combate ao tráfico de animais silvestres no Brasil?
Dener – Os desafios são muitos, maior talvez seja conscientizar a sociedade brasileira de que enquanto houver demanda, haverá o tráfico de animais. Manter animais silvestres como animais domésticos é uma prática cultural do nosso povo. E é necessário mudar isso, o que leva tempo, pois desde que o Brasil foi descoberto, essa relação existe e por causa dela muitas das nossas espécies estão ameaçadas de desaparecer, como já aconteceu com muitas outras. Também não podemos nos esquecer que cerca de 40% dos animais traficados no Brasil tem como destino o mercado internacional, então precisamos fazer esse alerta também no exterior.

As rotas, feiras e traficantes muitas vezes são conhecidos pelos órgãos e instituições que trabalham no combate ao tráfico. O que impede uma fiscalização mais eficaz?
Dener – Muitos problemas impedem uma atuação mais eficiente. O principal deles talvez seja a quase inexistência de locais para onde os animais apreendidos possam ser levados. Os Zoológicos estão lotados, os centros de triagem são poucos e quando um policial apreende um animal ele acaba ficando com um grande problema para resolver: o destino do animal. Já vi casos de policiais que ficam o dia inteiro tentando encontrar alguma instituição que aceite o animal. Essa realidade desestimula o trabalho dos fiscais. Um outro problema está nos resultados alcançados. Um fiscal faz o seu trabalho e o máximo que ele vê é o traficante pagar uma fiança de R$ 50,00 ou R$ 60,00 e ir embora. O problema está na lei, que hoje acaba favorecendo o criminoso, que na pior das hipóteses vai ser condenado a pagar algumas cestas básicas para reparar seu crime.

Como é feita a reabilitação e reintrodução dos animais apreendidos no seu habitat natural?
Dener
– Isso praticamente não existe no Brasil. Cerca de 90% dos animais retirados ilegalmente da natureza estão condenados a viver para sempre dentro de uma jaula. São poucos os que são devolvidos ao meio ambiente. Isso acontece porque além da falta de pesquisa sobre as áreas que poderiam servir como um local de soltura existe a dificuldade financeira. Vou dar um exemplo muito claro sobre isso: no Rio de Janeiro, que é considerado a capital do tráfico de animais no Brasil, cerca de 85% dos animais que são apreendidos pela fiscalização não pertencem a fauna endêmica do estado. Isso significa que é necessário ter recursos para mandar esses animais para suas regiões de origem, que geralmente é a Amazônia ou os Estados do Nordeste. Como o Estado alega que não tem dinheiro, esses animais vão para o cativeiro. Isso quando vão, pois a grande maioria acaba morrendo.

Qual o papel dos meios de comunicação no combate ao tráfico?
Dener
– A mídia em geral tem sido uma das principais aliadas no combate ao tráfico de animais silvestres, pois grande parte da sociedade ainda desconhece o que acontece com uma espécie para haver o seu comércio ilegal. A imprensa tem nos ajudado a divulgar o problema e com isso chamar a atenção das autoridades para o mesmo. Sem esse apoio dificilmente iríamos conseguir obter o apoio que estamos tendo da população.

Qual a sua opinião sobre a atual política ambiental brasileira?
Dener
– Ainda estamos muito longe de possuirmos uma ação efetiva para as questões ambientais. Ainda nos faltam políticas públicas consistentes, que harmonizem e promovam a integração dos órgãos responsáveis pela fiscalização e controle ambiental. O governo federal, os Estados e os Municípios ainda atuam de maneira isolada, o que enfraquece o esforço de promover a conservação da nossa biodiversidade. É importante ressaltar que uma política ambiental eficiente não é só responsabilidade do Poder Executivo, é preciso mobilizar o legislativo e o judiciário também. No caso do combate ao tráfico de animais silvestres isso é fundamental, pois quem faz a lei é um, quem fiscaliza é outro e quem julga é um terceiro. Ou seja, se não existir o diálogo e uma compreensão única do problema, fica difícil de resolvê-lo.

Quais são as linhas de trabalho que a Renctas desenvolve?
Dener
– A RENCTAS é uma instituição sem fins lucrativos que desenvolve diversos projetos destinados a proteção da nossa biodiversidade e atua prioritariamente em três frentes: Educação ambiental, pesquisa e conservação e apoio aos órgãos de controle e fiscalização ambiental. Para alcançar seus objetivos a RENCTAS desenvolve diversos projetos, como campanhas de conscientização ambiental, treinamentos e workshops, publicações sobre o tema, etc. As ações que a RENCTAS desenvolve poderão ser consultadas através do seu site: http://www.renctas.org.br 

Fonte: Ambiente Brasil – www.ambientebrasil.com.br