Antonio Carlos Rayol e Pompílio da Hora

 

Incontestáveis defensores da lei, Antonio Carlos Cardoso Rayol, 48 anos, Delegado Especial da Polícia Federal, cuja larga experiência lhe proporciona inúmeros convites para palestras e cursos sobre crime organizado, terrorismo e tráfico de entorpecentes, e Lorenzo Martins Pompílio da Hora, 45 anos, também Delegado da Polícia Federal e professor de Ciências Criminais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foram os responsáveis pelo planejamento e execução da ação policial que culminou com a prisão do publicitário Duda Mendonça, o predileto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.    

Antonio Carlos Rayol

Afastados das funções tão logo o caso tomou proporçoes inimagináveis, o que obrigou a interferência nefasta do Palácio do Planalto para salvar Duda Mendonça, Antonio Carlos Rayol e Lorenzo Pompílio da Hora enfrentam o cotidiano com dignidade e altivez, mesmo que cientes estejam de que novidades estão por vir. Senhores de currículos invejáveis dentro da corporação, situação que também se repete na vida pessoal de cada um, Rayol e Pompílio da Hora estão absolutamente convictos de que agiram dentro do que determina a lei. 

Em  um  encontro  na  Cidade  Maravilhosa  que  durou quase cinco horas, especial para a Entrevista do Sábado, os  delegados  Antonio Carlos Rayol e Lorenzo Pompílio da Hora (foto) relataram minuciosamente os passos da  operação  e  o  que encontraram na chácara que abriga mais badalada rinha de galos do país, o Clube Privê Cinco Estrelas, em Jacarepaguá, no  Rio  de  Janeiro. Acompanhados  de  agentes  e  outros  policiais  federais, além  de representantes do Ministério Público, os delegados não hesitaram em dar voz de prisão ao marqueteiro soteropolitano.   

Pompílio da Hora

Ucho Haddad Considerado como uma das personalidades de maior influência na política nacional, o publicitário Duda Mendonça, responsável pelo marketing do governo Lula, permitiu com sua prisão que o assunto sobre as sanguinárias brigas de galos voltassem à tona, saindo do quase abandonado universo dos defensores dos animais. As ilegais rinhas de galo vinham sendo regularmente combatidas ou era um assunto que não estava sendo tratado pela Polícia Federal por que não existia, até então, um departamento em sua estrutura especializado em crimes ambientais?   

Antonio Calos Rayol – Na verdade o assunto não vinha sendo tratado por nenhuma polícia. Se fizermos uma pesquisa é possível constatar que antes do dia 21 de outubro (2004), data da ação que culminou com a prisão de Duda Mendonça, não se tinha notícias de polícia estourando rinhas de galos. A partir desta data, várias rinhas de galos foram fechadas pela polícia. Dois dias depois do fechamento do Clube Privê Cinco Estrelas, a polícia fechou uma rinha em Maricá, no Rio de Janeiro, no Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo, entre outros locais. A operação de Jacarepaguá teve o mérito, e isso precisa ser reconhecido pela sociedade, de não apenas colocar o assunto em pauta, mas deixar claro que briga de galos é crime, o que, até então, muitas pessoas não tinham conhecimento. E sendo crime, deve, sim, ser combatido, independentemente de quem esteja praticando.   

U.H.Depois do afastamento dos senhores, as investigações sobre rinhas de galos diminuíram? Em caso positivo, tal situação pode ter levado a uma queda do número de estabelecimentos fechados pela ação da polícia, que deixou de atuar por conta de retaliações semelhantes às que os senhores foram vítimas. Existe alguma informação sobre tal assunto?   

Rayol – Como continuo trocando informações com pessoas ligadas a diversas organizações não governamentais que lutam pela proteção animal, descobri que muitas das rinhas que tradicionalmente funcionavam deixaram de abrir. As que estão ainda funcionando estão sendo alvo de pressão das Ong’s, que levam as informações aos policiais da área onde se encontram as rinhas, o que os obriga, de certa forma, a determinadas atitudes. As rinhas ligadas ao que batizei de primeira divisão das brigas de galos do país pararam de funcionar, o que mostra que a ação policial de 21 de outubro não foi tão inconseqüente como querem fazer acreditar algumas autoridades. O primeiro evento desse grupo, que deveria acontecer em Vitória, capital do Espírito Santo, em novembro de 2004, acabou não acontecendo. Outro encontro dos rinheiros estava programado para dezembro, em Belo Horizonte, e de igual maneira não aconteceu. No dia da prisão dos senhores Duda Mendonça e Jorge Babu, o marqueteiro do presidente Lula, já na delegacia, recebeu ligações de inúmeras pessoas que até então participavam de brigas de galos em todo o Brasil, informando que simplesmente estavam fora. O Duda Mendonça nos disse que a ação da Polícia Federal colocaria o assunto em discussão, o que poderia levar à legalização das rinhas ou ao seu definitivo sepultamento. Enquanto as brigas de galos eram consideradas crime de menor potencial ofensivo, os criminosos não se preocupavam com o assunto. A partir do momento que o assunto pôde ser enquadrado no artigo 288 do Código Penal (formação de quadrilha), o próprio Duda Mendonça nos disse textualmente que ninguém quer ser visto como quadrilheiro, lembrando que as grandes rinhas do país iriam acabar. Nos locais aonde ainda funcionam rinhas, a possibilidade de indiciar criminalmente os rinheiros por formação de quadrilha tem permitido às Ong’s agirem com mais força e estímulo. O Doutor Pompílio da Hora e eu recebemos, depois do episódio, diversos telefonemas, inclusive de integrantes do Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul, solicitando detalhes sobre o enquadramento penal que utilizamos. O promotor gaúcho que nos procurou disse que não havia pensado naquela possibilidade. A nossa atuação esteve, desde o começo, embasada legalmente, tanto é assim, que o Ministério Público do Rio de Janeiro também utilizou o artigo 288 do Código Penal para enquadrar Duda Mendonça e as outras cinco pessoas que o acompanhavam na rinha.   

U.H. No ato da prisão, tema que acabou, à época, infestando a mídia nacional, Duda Mendonça tentou se valer de seu estreito relacionamento com o Palácio do Planalto, situação prontamente rechaçada pelo ministro Márcio Thomas Bastos, que acabou orientando o publicitário a procurar um advogado. Os senhores perceberam naquele momento que o ministro Thomas Bastos foi sincero ou foi uma maneira articulada às pressas para dissimular o interesse excessivo da mídia?   

Rayol – Naquele momento o ministro não tinha outra coisa a fazer. O que foi dito pelo ministro ao Duda Mendonça foi uma orientação padrão. O ministro da Justiça sabe que ele não tinha autoridade naquele momento para fazer o que o Duda Mendonça queria, como solicitar aos policiais que deixassem o local. Não podemos esquecer que o ministro Márcio Thomas Bastos é um bom advogado, situação que o levou a recomendar que Duda Mendonça procurasse alguém para representá-lo juridicamente. Posteriormente, o ministro deu declarações que a Polícia Federal age de forma republicana, não persegue e não protege ninguém, mas o que vem acontecendo de lá para cá não tem nada de republicanismo. No dia 28 de outubro, o jornal Folha de São Paulo publicou uma notícia que informava que o presidente Lula teria determinado ao ministro da Justiça que investigasse a ação da Polícia Federal no caso Duda Mendonça, inclusive com troca de comandos. No que diz respeito à troca de comandos, ela aconteceu. A Delegacia do Meio Ambiente foi desmantelada, onde era chefe e fui afastado sem o devido prévio aviso. O delegado Lorenzo Pompílio da Hora, chefe de operações da delegacia, era o responsável pelo inquérito 133/2004, que investiga todos os envolvidos no caso, e foi retirado da presidência das investigações. As quatro testemunhas do processo que tramita na 26ª Vara Criminal do Rio de Janeiro foram retiradas da delegacia e espalhadas pela Superintendência da Polícia Federal. Tentaram enviar os dois agentes em viagem, sem data de retorno, para o interior do Rio de Janeiro, sendo que as viagens só não se consumaram pela pressão exercida pela mídia. Diante do ocorrido, os agentes foram se queixar ao sindicato ao qual são filiados, e acabaram sendo alvo de uma sindicância interna da Polícia Federal. Ou seja, os agentes têm o direito constitucional de se sindicalizar, mas não podem reclamar ao sindicato. Não é possível que o ministro da Justiça não esteja sabendo o que acontece aqui no Rio de Janeiro. E se o ministro sabe de tudo e não faz absolutamente nada, é porque ele aprova o que está acontecendo. E se a Polícia Federal fosse republicana como ele próprio diz, instituição que comanda, a atitude mais correta seria perguntar sobre os motivos que levaram ao nosso afastamento. Na verdade, o ministro deveria procurar saber se houve algum cometimento de irregularidade de nossa parte, antes de dizer que os afastamentos foram atos de rotina.   

U.H. Para decidir pela ação que culminou na prisão do publicitário Duda Mendonça, os senhores se basearam, inicialmente, na Constituição Federal, na Lei de Crimes Ambientais (9605/98 – artigo 32) ou na conjunção de ambas?   

Rayol – A Constituição Federal determina ao Poder Público a obrigação de proteger a fauna e a flora, e a doutrina entende como pacífico que a Lei de Crimes Ambientais seja um prosseguimento do comando constitucional. Na realidade a tipificação do crime está no artigo 32 da Lei de crimes Ambientais, que trata da promoção de crueldade contra animais, como é o caso de lutas entre animais.   

U.H.Como e desde quando a rinha de galos freqüentada por Duda Mendonça vinha sendo monitorada pela Polícia Federal, e quais os procedimentos que antecederam a operação policial em questão? Há quem garanta, sem nenhuma comprovação, que tudo não passou de uma armação do próprio publicitário para escapar da responsabilidade da então eminente derrota de Marta Suplicy, à época dos fatos candidata à reeleição em São Paulo. Isso realmente pode ter acontecido ou é um fato absolutamente descartado?   

Rayol – Nunca ouvi tal teoria, mas se o Duda Mendonça realmente fez isso, ele foi muito competente, pois nós fomos usados sem ter conhecimento. Os fatos mostram que, após a prisão de Duda Mendonça, a ex-prefeita Marta Suplicy subiu nas pesquisas eleitorais. Ele pode, sim, ter usado o que aconteceu para mostrar que estava temporariamente afastado da campanha eleitoral. A presença do publicitário na rinha nos surpreendeu, principalmente pelo fato de não ser do Rio de Janeiro e por estar envolvido em uma campanha de alta responsabilidade. O nosso objetivo era fazer uma operação policial que chamasse a atenção para o problema das rinhas de galos e, também, para a delegacia que estava sendo criada e, indiretamente, acabamos contando com os préstimos do maior marqueteiro do Brasil, que deu grande divulgação ao caso. Nossa intenção não era, de forma alguma, encontrá-lo naquele local. Inclusive, dias depois, a piada que tomou conta de alguns setores da imprensa carioca foi que éramos os únicos que conseguiram utilizar a capacidade criativa do Duda Mendonça sem remunerá-lo. O nosso trabalho teve início quando do recebimento das primeiras denúncias de Ong’s contra rinhas, para, em uma etapa posterior, nos adequarmos à agenda dos rinheiros, pois as rinhas não funcionam todas as semanas. Como descobrimos que um evento estava marcado para acontecer nos dias 21, 22 e 23 de outubro, agendamos a ação para o primeiro dia. No final de setembro, encaminhamos ao delegado Jorge Barbosa Pontes, em Brasília, diretor da Divisão de Crimes contra o Meio Ambiente, um planejamento minucioso da operação, que batizamos de Rudis. A explicação para a escolha do nome da operação está na história. Rudis era o nome dado à espada de madeira, que todo gladiador recebia como prêmio por ter às lutas no Coliseu romano.   

U.H.Quando Duda Mendonça chegou à delegacia da Polícia Federal, o que os senhores ouviram do marqueteiro do presidente Lula? Ele, em algum momento, teria abusado da sua conhecida e debochada arrogância ou foi logo se fazendo passar por autoridade, status que não tem direito de ostentar?   

Rayol – Tal situação não ocorreu na delegacia, mas no Clube Privé Cinco Estrelas. Minutos após termos chegado ao local, quando ainda estávamos tomando pé da situação, ele (Duda Mendonça), acompanhado por um grupo de pessoas, se aproximou e perguntou se eu era o delegado Rayol, mas não foi arrogante no primeiro momento. Na verdade, o publicitário foi muito hábil, tendo se apresentado como assessor do presidente. No momento não percebi quem era a pessoa que estava diante de mim, sendo que conclui ser ele o assessor do presidente do clube e não do presidente Lula. Ao lhe perguntar se era assessor do presidente do clube, Duda Mendonça respondeu que era assessor de Luiz Inácio Lula da Silva, quando, então, percebi quem era efetivamente o meu interlocutor. Naquele momento, com um telefone celular nas mãos, Duda Mendonça perguntou se haveria algum inconveniente caso ele telefonasse para o ministro Márcio Thomas Bastos para esclarecer aquele mal entendido, ao que lhe respondi que não havia restrições ao uso de telefone, mas que não havia nenhum mal entendido no local. Na réplica, Duda Mendonça perguntou se era de meu conhecimento que ele estava tentando legalizar as rinhas de galos, ao que retruquei, então, que não havia de fato nenhum mal entendido: “se o senhor está tentando legalizar é porque não é legal”. Na manobra de pedir para ligar para o ministro, supostamente o senhor Duda Mendonça esperava que nós nos sentíssemos intimidados. Por conta da pequena multidão que havia no local, ele poderia ter ligado para o ministro sem que soubéssemos do fato.   

Pompílio da Hora – O senhor Duda Mendonça ligou para o ministro Márcio Thomaz Bastos e para o Secretário Nacional de Segurança e, na seqüência, ligou insistentemente para a secretária do Presidente da República. Em determinado momento, o senhor Duda Mendonça tentou sair do local, sob a desculpa de que tinha uma reunião de campanha no dia seguinte.   

Rayol – Um dos afastados, o agente Amado, lhe dirigiu a palavra e disse que ele não poderia deixar o local, pois encontrava-se detido. Indignado com o que ouvira, Duda Mendonça perguntou se o agente queria lhe dizer que estava preso. Amado prontamente respondeu que sim. Voltando ao episódio do telefonema dado ao ministro da Justiça, minutos depois recebi uma ligação do delegado Jorge Barbosa Pontes, de Brasília, querendo saber o que estava acontecendo, embora o delegado tivesse sido avisado sobre a operação. O que Barbosa Pontes queria era ter certeza se Duda Mendonça estava realmente no local, pois, de acordo com suas próprias palavras, teria sido chamado pelo delegado Zulmar Pimentel, segundo homem na hierarquia da Polícia Federal. A partir de então, Barbosa Pontes passou a informar, por telefone, a Zulmar Pimentel o andamento da operação. Em seguida, Barbosa Pontes telefonou-me novamente, dizendo ter conversado com o diretor-geral da Polícia Federal, delegado Paulo Lacerda, que recomendou que o procedimento fosse feito na forma da lei, situação que teria ocorrido independentemente de qualquer telefonema. O fato é que havia local de crime e o crime estava em andamento, situação que nos obrigou a levar as pessoas para a delegacia.   

U.H. Inexplicavelmente, a exemplo do que ocorreu com os dois agentes que participaram da operação, os senhores foram transferidos para outros departamentos da Polícia Federal, sob a explicação de que se tratava de um procedimento de rotina. O senhor acredita que foi, de fato, um procedimento de rotina ou é possível afirmar que foi um escandaloso caso de retaliação?   

Pompílio da Hora – Como disse anteriormente, durante todo o tempo em que trabalhamos na Polícia Federal estivemos à frente de diversos e importantes departamentos da corporação, no Rio de Janeiro, deles saindo para assumir uma delegacia que estava sendo montada. Na Delegacia de Repressão a Entorpecentes, a DRE, fiquei quase seis anos, para, em seguida, permanecer menos de quatro meses na Delegacia do Meio Ambiente e do Patrimônio Histórico (DELEMAPH). Não posso entender como uma atitude lógica, e, tanto não entendo, que acionei um advogado para estudar o caso em questão. Para mim, particularmente, como também ao delegado Rayol, é um nítido e claro caso de retaliação. Essa foi a terceira operação da DELEMAPH, e a que mais repercutiu. Nossa equipe não apenas trabalhou na operação da prisão dos participantes daquele evento, mas iniciou a criação de uma importante base de dados. É importante dizer que, por tudo o que aconteceu, hoje na mais me encanto com a atividade policial.   

Rayol – Fiquei na delegacia pouco mais de quatro meses. Lembro-me que, acossado pela mídia, o assessor de imprensa da Superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro disse que essas transferências faziam parte da rotina administrativa, mas é preciso lembrar que nenhuma polícia do mundo funciona com troca de chefias de três em três meses. Isso é um absurdo, é o discurso de quem não tem outro argumento para apresentar.   

Pompílio da Hora – Essas modificações começam pelos agentes, e – o Rayol tem bem marcadas essas datas – a partir do momento que é encaminhado o relatório do inquérito e a promotora propõe a denúncia. Ato seguinte, a denúncia é recebida pelo juiz e o delegado Rayol, afastado.   

Rayol – Três dias depois da conclusão do relatório do inquérito, os dois agentes federais, Amado e Guimarães, testemunhas do auto de prisão em flagrante, são afastados da delegacia sob a desculpa de que seriam utilizados em uma missão fora do Rio de Janeiro, sem data de retorno. A promotora, como disse o delegado Pompílio da Hora, oferece denúncia e juiz prontamente aceita, em 17 de dezembro, uma sexta-feira antes do recesso. A denúncia foi embasada nos artigos 287 (apologia ao crime), 288 (formação de quadrilha) e no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais. Porém, o Ministério Público acrescenta na denúncia os nomes das duas testemunhas do flagrante como testemunhas de acusação, procedimento também dispensado a nós, delegados responsáveis pelo caso. No dia 20 de dezembro fui informado do meu afastamento, sendo que uma semana mais tarde o delegado Lorenzo Pompílio da Hora também é afastado de suas funções. E para não utilizar a palavra coincidência, afirmo que houve uma sintonia de datas.   

Pompílio da Hora – Com relação ao andamento do inquérito, tomei a providência de pedir a quebra dos sigilos bancário e fiscal de cerca de cento e cinqüenta pessoas, todas elas envolvidas direta ou indiretamente com o Clube Prive Cinco Estrelas. O defensor do senhor Duda Mendonça, advogado Luiz Guilherme Vieira, que vinha acompanhando quase que diariamente o andamento do inquérito na delegacia, quando soube das minhas providências, sendo informado de que não me encontrava na delegacia, procurou-me, então, no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mais precisamente na Faculdade de Educação. No encontro, Luiz Guilherme Vieira disse que o seu cliente, Duda Mendonça, gostaria de acabar com o caso o mais rápido possível, lembrando que o pedido de quebra de sigilos bancário e fiscal só complicaria o caso ainda mais. Respondi ao advogado que a medida não era desnecessária como ele afirmara, lembrando-o que o inquérito estava sendo conduzido de forma absolutamente técnica. Mesmo assim, o advogado insistiu no assunto, perguntando se havia alguma coisa a ser feita para mudar o meu pensamento, ao que respondi que não. E como Luiz Guilherme Vieira não conseguiu mudar a minha idéia, o meu pensamento, acabou conseguindo mudar todos os policiais responsáveis pelo caso.   

Rayol – No inquérito 133/2004, que é o prosseguimento da investigação da rinha onde foi preso o senhor Duda Mendonça, foi despachada a emissão de cento e cinqüenta intimações, as quais são documentadas nos autos à medida que são efetivadas. Após a nossa saída, nenhuma intimação foi cumprida, pelo menos até onde temos conhecimento. Ao contrário do que foi feito com os agentes, “relotados” por ordem do delegado Prel, o nosso caso foi uma manobra para diluir a responsabilidade, em que foi trocado o delegado-chefe da delegacia, o qual também se esquivou da responsabilidade que tentaram lhe impor, ou seja, a de nos apresentar ao Departamento. A apresentação de um delegado ou agente ocorre quando o policial é colocado em disponibilidade da, por solicitação própria ou por decisão interna. Resumindo, o novo delegado também não quis assumir a responsabilidade de nos tirar da Delegacia de Meio Ambiente e Patrimônio Histórico.   

U.H.- Após a saída dos senhores da DELEMAPH, o que de importante aconteceu na delegacia. Ocorreu algum tipo de ação policial que pudesse ser considerada como de peso?   

Rayol – Nenhuma, nem de peso e nem sem peso. Enquanto nós estivemos à frente da delegacia, de agosto a dezembro de 2004, fizemos uma operação de devolução de duas toneladas de fósseis retirados da Serra do Cariri, outra de apreensão de aves, juntamente com o Ibama, a recuperação de duas telas do período cuzqueño (século XVII), desviadas do território peruano e, finalmente, a operação da rinha de galos em Jacarepaguá. Depois de nossa saída nada mais foi feito. Havíamos entabulado uma operação conjunta com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para vistoriar uma área de sambaquis, em Niterói, que vem sendo loteada irregularmente, que infelizmente não prosseguiu depois do nosso afastamento.   

Pompílio da Hora – Em relação às diligências do inquérito 133/2004, o Ministério Público e a Justiça Estadual concederam um prazo adicional de sessenta dias para que todas as pessoas pudessem ser ouvidas, o que certamente contribuiria para descobrir os artigos do Código Penal nos quais elas seriam indiciadas. E, lamentavelmente, tudo ficou parado.   

U.H. – O que os senhores e os dois agentes encontraram na rinha onde ocorreu a prisão de Duda Mendonça, além de animais mal tratados e outros prestes a serem atirados nas bisonhas disputas? Existiam, naquele local, evidências materiais de apostas ou práticas semelhantes? Apostas, exceto as conhecidas e permitidas pela legislação, não são consideradas proibidas?   

Rayol – O fato principal do caso era a rinha de galos, mas na realidade o que há por trás disso tudo é jogo. O que move as rinhas é o jogo. Nessa rinha de galos, que também é conhecida como Maracanã, por força de sua grandiosidade física e pelo volume de apostas, o cacife mínimo era de R$ 1 mil, valor idêntico para a inscrição de um galo no certame. Encontramos no local evidências de que um evento daquele porte arrecada, em média, R$ 3 milhões em um final de semana. Em algumas brigas de galos, lá no Clube Prive Cinco Estrelas, as apostas chegaram a movimentar R$ 1 milhão. Os presentes ao evento dispunham de cartões magnéticos previamente carregados com créditos, sendo que os freqüentadores habituais contavam, inclusive, com uma linha de crédito pré-aprovada, podendo apostar para pagamento posterior. Antes do início das lutas, os animais eram pesados e os placares eletrônicos anunciavam a pesagem, o que denota que nada de amador existia naquele local. Na verdade, o que existe naquela rinha é uma estrutura sofisticada e luxuosa, com equipamentos de ar condicionado central, restaurante internacional, garçons devidamente uniformizados, tratadores de galos com uniformes, enfermaria e hotel climatizado para os galos. Ou seja, uma estrutura profissional com clara divisão de tarefas. Não se pode furtar o enquadramento dos envolvidos no crime de formação de quadrilha, pois o Clube Prive Cinco Estrelas possuía até livro de atas, onde constava a assinatura do senhor Duda Mendonça.   

Pompílio da Hora – O livro de atas foi um dos documentos por mim apreendidos. De acordo com os registros do livro, o clube ficava com dez por cento de tudo que era arrecadado durante um certame de galos. O dinheiro auferido pelo clube era utilizado para a manutenção de sua luxuosa estrutura. O restante do valor arrecadado era, então, destinado aos proprietários dos animais que conquistavam os três primeiros lugares no torneio. Encontramos lá no local provas de que carros zero quilômetros seriam entregues como prêmio aos melhores colocados no torneio. Algumas pessoas que estavam na rinha nos explicaram que o valor correspondente ao modelo de veículo anunciado era disponibilizado em uma concessionária de automóveis, por acordo previamente firmado. O prêmio em dinheiro conquistado pelos proprietários era, por que pude perceber, distribuído entre todos os responsáveis pela preparação dos animais, o que significa que os tratadores também eram recompensados financeiramente.   

U.H. – Em algumas unidades da federação a Justiça tem concedido ganho de causa aos rinheiros, que sob a esfarrapada desculpa de ser um hobby, mantêm uma prática que vai contra os princípios da legalidade, isso sem contar os preceitos do bom convívio entre os homens e os animais. Na opinião dos senhores, quais justificativas podem estar levando a Justiça a determinadas decisões, e quais são os milionários e irresponsáveis financiadores de tão sanguinária prática em todo o país?   

Rayol – Em todo os Estados onde ocorreu a tentativa de legalização das rinhas de galos, a Justiça acabou impedindo que o assunto prosseguisse. Existe, inclusive, uma decisão do Supremo Tribunal Federal a respeito. O caso mais recente se deu em Pernambuco, onde o Tribunal de Justiça autorizou o funcionamento de um estabelecimento chamado de Palácio do Galo, em Olinda, mas é bem possível que tal decisão venha a ser cassada, até porque existe, como disse anteriormente, jurisprudência do STF. O juiz que concedeu autorização para o funcionamento do Palácio do Galo justificou sua decisão alegando ser uma questão cultural, o que vem a ser um notório absurdo. Por outro lado, o mesmo juiz justifica que os rinheiros não promovem a briga entre galos, mas apenas observam o fenômeno da natureza, o que também é um absurdo, porque na natureza os galos não utilizam biqueira de metal ou esporões de acrílico, não são colocados em pequenas arenas e não são obrigados a lutar quase até à morte, situações que ocorrem repetidamente nas rinhas de galos. Poucos dias depois da prisão do senhor Duda Mendonça, um parlamentar baiano apresentou um projeto na Câmara dos Deputados, tentando legalizar as rinhas de galos, mas a Comissão de Meio Ambiente felizmente sepultou a tentativa do deputado. O que existe por trás das rinhas de galos é uma quantidade enorme de dinheiro, principalmente no que tange às apostas, sendo que alguns animais chegam a valer, dependendo do histórico de desempenho, até R$ 50 mil. Os rinheiros e adeptos das rinhas de galos viajam por todo o país atrás de competições, o que nos levou a solicitar ao Serviço de Vigilância Agropecuária as guias de trânsito animal dos últimos dois anos, pois certamente conseguiríamos chegar aos nomes de muitos dos envolvidos com as brigas de galos. Viajar pelo país com uma galo debaixo do braço não é crime, mas o cruzamento de informações certamente nos levaria a conclusões e provas documentais incontestáveis. Como o prosseguimento das investigações incomodaria muita gente de poder político e financeiro muito grande, acharam por bem interromper o nosso trabalho.   

Pompílio da Hora – Nós, o delegado Rayol e eu, já trabalhamos em outras delegacias, onde se combate realmente o crime, como é a questão do tráfico de entorpecentes. Nesses casos, é quse obrigatório ter familiaridade com ações duras e violentas praticadas por criminosos. O que tenho observado é que o criminoso, além do crime principal, acaba cometendo uma série de outras violências, situação que é muito comum no Rio e em São Paulo, como em qualquer outra grande cidade do país. Há dias, em uma operação da Delegacia Fazendária, onde agora estou lotado, fui reconhecido por uma pessoa que acompanhou o caso de Jacarepaguá, que disse existir no Jacarezinho, comunidade pobre do Rio de Janeiro, muitas rinhas de galos. No Jacarezinho, onde existe quase uma tradição de forte tráfico de entorpecentes, crianças e adolescentes estão assistindo às violências praticadas contra e entre os animais, sem que tenham uma série de subsídios necessários à formação do caráter do ser humano. Como pudemos constatar na investigação da rinha de Jacarepaguá, existiam menores que participavam dos certames, com as devidas autorizações registradas no livro de atas do clube. Aí, sim, é possível concluir que certas violências cometidas por jovens têm relação com maus tratos a animais.   

U.H. – Existem estudos que afirmam, de forma científica, que pessoas que optam por algum tipo de violência, principalmente aquela que está mais à mão – é o caso dos rinheiros – praticaram algum tipo de violência contra animais na infância ou na juventude. Em se tratando de uma verdade, não chega a ser preocupante o fato de Duda Mendonça, um confesso apaixonado pelas brigas de galos, ser o responsável indireto pelos destinos do país, se analisarmos que toda a ação do governo Lula está atrelada a alguma estratégia que depende do publicitário baiano?   

Rayol – Faço aqui uma revelação em primeira mão, mas não fui o único que ouviu do senhor Duda Mendonça que o Presidente da República sabia que ele gostava de brigas de galos, bem como o próprio Lula também gostava de rinhas. Diante do que ouvi, voltei ao senhor Duda Mendonça e perguntei se ele estava afirmando que o presidente Lula gostava de rinhas de galos, mas o publicitário recuou e se retratou. Porém, há dias, recebi por e-mail uma foto de uma das Caravanas da Cidadania, onde o então candidato Lula aparece com estilingue na mão (foto), atirando contra algum animal. É claro que as pessoas mudam, e pode ser que atualmente o nosso Presidente da República seja um grande apaixonado pela causa ambiental, mas na época ele não tinha tal consciência enquanto atirava pedras em passarinhos. No documentário “Entreatos”, do cineasta João Moreira Salles, existe uma cena onde aparecem os senhores Luiz Inácio e Duda Mendonça, sendo que o presidente Lula, ao som de um samba, tenta batucar e não consegue, dizendo logo em seguida que batuque não era seu forte. Na seqüência, o senhor Duda Mendonça começa a batucar e, olhando para a câmera do cinegrafista, diz, com todas as letras: “de batucada e rinha eu entendo”. Chega a ser muito preocupante que em uma república, em pleno século XXI, um assessor presidencial, formal ou informal, confesse de público que é adepto de uma prática que a lei diz ser criminosa. Isso é uma coisa impensável no primeiro mundo, mas aqui, para nós, deixa a clara sensação de que o Brasil é uma verdadeira república de bananas.   

U.H.- Então, na opinião dos senhores, o senhor Duda Mendonça conta com a conivência do presidente Lula, pois se ele diz que o presidente sabe e que também gosta de rinha, mesmo que tenha se retratado segundos depois, e no documentário faz uma declaração descabida ao lado do candidato Lula?   

Rayol – Sim, o presidente Lula tem conhecimento que seu assessor é adepto de uma prática que a legislação considera como sendo criminosa. É muito preocupante.   

Pompílio da Hora – Existem vários estudos sobre violência e masculinidade. O que venho observando nessas leituras é que chega a ser extremamente preocupante, como disse o delegado Rayol, o fato de alguém como o senhor Duda Mendonça, que tem as condições que todos nós sabemos, faça um discurso como o que foi feito. As palavras do senhor Duda Mendonça podem estimular não só aqueles que freqüentam as rinhas de galos, mas outras situações de violência como pode ser conferido em vários estudos realizados por universidades. Quando existe algum tipo de violência praticada em eventos esportivos, normalmente os representantes das torcidas envolvidas se anetcipam e dizem não ter nenhuma ligação com os protagonistas dos fatos, ou seja, os expoentes se afastam desses discursos, enquanto o senhor Duda Mendonça busca uma aproximação escandalosa ao afirmar que é rinheiro. Quando a juventude que vive nesses bolsões de pobreza e miséria assiste à prática de um esporte violento, se é que assim pode ser chamado, que não é uma exclusiva de pessoas endinheiradas, chega a ser preocupante.   

U.H.Os senhores acreditam que existe na prática das brigas de galos ou maus tratos a animais alguma relação entre a violência e a necessidade quase contínua de construção de uma imagem de masculinidade?   

Rayol – Sim, realmente existe. Tanto é verdade que poucas eram as mulheres que estavam no Clube Prive Cinco Estrelas no dia da operação policial. Creio que em um universo de cento e cinqüenta pessoas estavam lá, no máximo, três ou quatro mulheres. A visão do sangue, em uma situação anormal, incomoda qualquer ser humano. Não é normal alguém apreciar um espetáculo de sangue, seja humano ou animal. No artigo de minha autoria, publicado no jornal O Globo, cujo título é Atração Mórbida, abordo a existência de uma correlação muito grande entre pessoas que têm predisposição à violência. Permitir que animais domésticos ou de estimação se engalfinhem não é uma atitude que pode ser considerada normal, quando o impulso é, ou pelo menos deveria ser, separá-los. Estimular a luta e com ela auferir lucros é uma anormalidade. O FBI realizou um estudo nos EUA e descobriu que a maioria dos “serial killers” foi vítima de violência na infância ou cometeu algum tipo de violência contra animais. O que não significa que todo cidadão que foi vítima de violência na infância ou a praticou contra algum animal será fatalmente um “serial killer”, ou vice-versa.   

U.H. – O procedimento pós-policial do caso, ou seja, depois do flagrante, da instauração do inquérito e do respectivo relatório, parece estar totalmente emperrado. O que estaria acontecendo realmente no inquérito 133/2004, que é a continuidade do inquérito do flagrante, e qual a ingerência do Palácio do Planalto nesse caso? O que vem ocorrendo no inquérito que tem o publicitário Duda Mendonça centro das atenções, que foge das práticas habituais e legais?   

Rayol – Posso afirmar que, hoje, o inquérito 133/2004 está totalmente parado. Desde que o delegado Pompílio da Hora foi afastado da presidência do inquérito, nada foi feito. Pode ser que, em breve, alguma coisa aconteça, mas as investigações foram paralisadas, até porque os dois agentes, responsáveis pela análise do material apreendido na rinha de Jacarepaguá, foram retirados da delegacia, situação que se repetiu comigo e com o delegado Pompílio da Hora.   

U.H.- O que os senhores imaginaram desvendar quando do pedido de quebra de sigilos fiscal e bancário das pessoas que estavam no Clube Prive Cinco Estrelas?   

Pompílio da Hora – Estamos até agora surpresos com o que achamos até o momento do nosso afastamento. Jamais imaginei que fosse encontrar indícios que comprovassem a habitualidade do crime em questão, o que nos levou a um estudo demorado e detalhado do assunto, antes de remetermos as informações à Justiça e ao Ministério Público. O banco de dados que pretendíamos montar a partir das guias de transporte de animais, nos proporcionaria condições de realizar um cruzamento de informações e obter a verdadeira dimensão das rinhas de galos em todo o país. Nós estávamos desenvolvendo um banco de dados somente sobre essa movimentação criminosa, mas infelizmente tudo foi interrompido sob a desculpa de atos de rotina.   

Rayol- O senhor Duda Mendonça pode muito bem chegar diante do juiz e dizer que gosta de rinhas de galos, mas que não as freqüenta. Que só estava lá na rinha de Jacarepaguá a convite de alguém, e que o fato de seu nome constar como sócio do clube pode ter sido uma atitude leviana de qualquer pessoa. Caso a construção do banco de dados tivesse prosseguido, qualquer desculpa que venha a ser apresentada pelo senhor Duda Mendonça poderia muito bem ser derrubada, caso a Justiça recebesse da DELEMAPH as informações que iríamos obter com as investigações. O inquérito 133/2004 mostra que existe uma chamada primeira divisão das rinhas de galos no Brasil. O delegado Pompílio da Hora, ainda na presidência do inquérito, já cogitava a possibilidade de cometimento de outros crimes, como lavagem de dinheiro e evasão de divisas, crime, este último, cometido quando da venda de galos de briga para o exterior.   

U.H. – Os senhores não acham que a mídia, no afã de obter uma manchete polêmica, colaborou consideravelmente para a divulgação do caso, sendo que hoje o assunto mesmo perdeu de forma até vertiginosa o espaço na grande imprensa. O que pode ter acontecido de fato, e até que ponto pode se dizer que existe uma ingerência palaciana também nos meios de comunicação?   

Rayol – Em primeiro lugar, está absolutamente claro que a imprensa está muito presa aos interesses do governo, noticiando somente aquilo que está no balcão e colocando na prateleira o que não interessa ao Palácio do Planalto. Porém, existe o fato do senhor Duda Mendonça deter as mais importantes contas publicitárias do governo, o que lhe confere um certo poder de negociação. Um conhecido veículo de comunicação do Rio de Janeiro, de grandes proporções, decidiu, segundo informações que apurei, interromper a divulgação do caso, pela simples promessa de obter benefícios advindos das verbas publicitárias oficiais controladas pelo senhor Duda Mendonça. Por mais que seja natural que, com o passar do tempo, o assunto caia no esquecimento, também é possível que esse tipo de ingerência aconteça. Nem todo órgão de imprensa pode se dizer independente, a ponto de desprezar uma polpuda verba publicitária. Porém, novos fatos vão acontecer, que levarão o assunto, mais uma vez, à mídia, independentemente da vontade do governo Lula, como é o caso do interrogatório do senhor Duda Mendonça no próximo dia 14 de março. Por outro lado, fomos informados que algumas Ong’s pretendem deflagrar uma contagem regressiva que tem como ponto final o dia do interrogatório que mencionei.   

U.H. – Levando-se em consideração que uma investigação bem apurada obriga dos envolvidos um estudo do assunto em questão, qual é a verdadeira situação das brigas de galos no Brasil em termos de volume de apostas e prêmios pagos? Existe por parte das autoridades brasileiras algum tipo de empenho para coibir uma prática tão execrável?   

Rayol – É impossível falar em volume de apostas. O inquérito 133/2004, por exemplo, poderia esclarecer muito sobre esse circuito da primeira divisão das rinhas de galos, mas no geral é muito difícil saber. Se houvesse empenho da Polícia Federal para dar continuidade a esse combate, certamente não teríamos sido retirados da DELEMAPH. A delegacia não só parou com a investigação das rinhas de galos, mas também em relação a outras modalidades de crime. Pelo menos nesse aspecto não existe empenho nenhum por parte de qualquer autoridade, sendo que parece verdadeira piada uma recente entrevista do diretor-geral da Polícia Federal, delegado Paulo Lacerda, que disse que 2005 seria o ano do combate aos crimes ambientais, no momento em que ele acaba de permitir ou se omite em relação à quase extinção de uma delegacia que vinha funcionando muito bem.   

U.H. – Se em algumas unidades da federação a prática das brigas de galos é proibida, como os rinheiros conseguiam viajar com seus animais para outros Estados sem serem incomodados pela Justiça ou, até mesmo, pelas diversas instâncias policiais ou pelo poder público? Nos aeroportos não existem mecanismos de controle para embarque de animais?   

Rayol – Existem dois aspectos que precisam ser levados em consideração. Crime é promover a briga entre os galos em uma rinha, mas a criação dos mesmos, a venda e até o seu transporte não se configura crime algum. O mesmo acontece com cães da raça pitbull. Criá-los não é crime, mas colocá-los para brigar, sim. O segundo aspecto é que nenhum animal embarca em uma aeronave sem controle, pois o Serviço de Vigilância Agropecuária exige a apresentação da Guia de Trânsito Animal, documento expedido por um médico veterinário credenciado, que atesta, ou não, estar o animal em perfeitas condições de saúde. No corpo do inquérito 133/2004 existe um documento encaminhado ao Serviço de Vigilância Agropecuária, solicitando todas as GTA’s emitidas nos últimos dois anos para embarque de galos de briga. Assim, seria possível chegar aos nomes das pessoas que transitaram pelo país com galos de briga, mas tenho dúvidas se tal providência será levada adiante.   

Pompílio da Hora – O cruzamento dos dados, como já disse anteriormente, permitira mapear o território nacional em relação às rinhas de galos e rinheiros. No Pará, por exemplo, existe uma família (Mutran) que se dedica à prática das rinhas. No Rio Grande do Sul também existe um grande contingente de pessoas ligadas à essa prática criminosa. O inquérito 133 certamente elucidaria boa parte do crime praticado contra os animais, em especial os galos de briga, além de subsidiar futuras investigações de outras superintendências da Polícia Federal.   

Rayol – Acho que a interrupção não impediu a formação da base de dados, mas teve apenas o propósito de impedir. Inicialmente porque iríamos coletar mais dados sobre as pessoas que estão envolvidas nessa prática de crime, o que certamente nos levaria ao descobrimento de novos transgressores da lei, provavelmente pessoas que não queiram ou não possam aparecer.   

U.H. – Os senhores se surpreenderam com o fato do advogado Luiz Guilherme Vieira, que defende o ex-assessor do ministro Jose Dirceu, Waldomiro Diniz, estar agora defendendo Duda Mendonça, ou pode-se dizer que se trata da ponta de um iceberg chamado ingerência palaciana, ou seja, um conluio oficial pata tentar salvar o publicitário Duda Mendonça?   

Rayol – Na minha opinião tudo parece normal, pois, ao que tudo indica, o senhor Duda Mendonça está trabalhando para o “dark side” (pode-é possível traduzir como banda podre) do Partido dos Trabalhadores. Ele recebeu alguma indicação de alguém de dentro do Palácio do Planalto, pois com a quantidade de advogados que existem no Brasil é muita coincidência que o mesmo defensor de Waldomiro Diniz passe a defender Duda Mendonça. No primeiro dia, o senhor Duda Mendonça mandou trazer da Bahia, em seu próprio jatinho, o seu advogado, que acabou, em um segundo momento, sendo substituído por Luiz Guilherme Vieira, que já vem se saindo bem no caso Waldomiro Diniz.   

U.H. – Quando o advogado Luiz Guilherme Vieira procurou pelos senhores, existiu, em algum momento, qualquer tipo de insinuação de que algo poderia acontecer na carreira de ambos, algum tipo de pressão, ou ele agiu dentro do que determina a ética profissional?   

Rayol – O advogado Luiz Guilherme Vieira sempre foi muito educado e elegante, não havendo de nossa parte nenhum tipo de reclamação a respeito. Em momento algum o advogado insinuou que retaliações poderiam acontecer, mas ele apenas perguntou se havia alguma coisa que pudesse ser feita para mudar o pensamento do delegado Pompílio da Hora em determinadas providências que estavam sendo tomadas. Diante da negativa, o advogado não insistiu. Por outro lado, existiu uma sintonia muito grande quando analisamos a seqüência de fatos, pois diante da impossibilidade de mudar o delegado Pompílio da Hora, o advogado conseguiu, sim, mudar o delegado de posto. À época, disse ao delegado Pompílio da Hora que o advogado Luiz Guilherme Vieira deveria ter uma fada madrinha muito eficaz, pois todos os seus desejos se realizaram rapidamente. Logo de início, o advogado não queria que seu cliente fosse enviado para o presídio da Água Santa, e o publicitário de fato não foi para lá.   

U.H. Quando o senhor, delegado Pompílio da Hora, foi procurado no campus da UFRJ pelo advogado do senhor Duda Mendonça, qual foi a sua interpretação daquela atitude, levando-se em conta toda a sua vasta experiência como policial?   

Pompílio da Hora – Estranhei muito a atitude do advogado, tanto que no mesmo dia comuniquei o fato aos meus superiores. Perguntado pelo telefone celular sobre onde me encontrava, respondi ao advogado que estava na UFRJ. Momentos depois, o advogado do senhor Duda Mendonça apareceu no campus universitário, quando comentou uma reportagem que noticiava a decisão do presidente Lula de nos investigar. Aparentemente muito preocupado, o advogado Luiz Guilherme Vieira fez questão de lembrar que seu cliente nada tinha a ver com a decisão presidencial, como se o fato pudesse interferir em algumas de nossas decisões. Diante do posicionamento do advogado, lembrei-o que o meu cargo não foi presente do presidente Lula e muito menos do senhor Duda Mendonça. Foi, sim, conquistado através de concurso público, de forma legal e transparente, e os meus direitos certamente serão pleiteados na Justiça. Realmente nunca vivi situação tão sui generis. A partir do momento que, depois de todas as minhas claras explicações, o advogado percebeu que não tinha mais argumento, ele desistiu de me importunar.   

Rayol – Nessa situação toda, o menos prejudicado sou eu, pois já tenho tempo suficiente para me aposentar e costumo dizer que, hoje, faço um trabalho voluntário para a Polícia Federal. Já um dos agentes, afastado pelo DPF, está muito desestabilizado, enquanto o outro se encontra profundamente chateado, principalmente porque se perde o referencial com esse tipo de retaliação. O referencial do policial é não atirar sem motivo, não investir contra alguém sem motivo, não roubar, ou seja, não ter problemas na carreira e agir dentro da lei. E quando se age dentro da lei, acaba-se sendo vítima de represálias. Então, cabe a pergunta de qual é o referencial do bom policial. Será que nós deveríamos ter roubado ou pedido algum dinheiro ao senhor Duda Mendonça para deixá-lo ir embora? Nós não sabemos mais o que deve ser feito para não se ter problemas, sendo que tal situação se reflete no Departamento de Polícia Federal. A revolta dos delegados da DPF é geral, situação que pode ser constatada nas páginas eletrônicas das entidades de classe, que ressuscitaram a questão da “inamovibilidade”, que é o direito da autoridade policial de não ser transferido ou de ser pinçado da presidência de uma investigação. Ora, qual é a conclusão a que chega um delegado que acaba de ingressar na Polícia Federal, diante da retaliação promovida contra um delegado federal especial em final de carreira, como é o meu caso? Todos ficam preocupados, pois sabem que tal situação pode se repetir a qualquer momento. O meu empenho para que o caso não caia na vala comum é para que sirva como divisor de águas, pois já existe um projeto de alteração constitucional em andamento na Câmara dos Deputados sobre “inamovibilidade’, que tem recebido pareceres favoráveis, quando não votos de aprovação. Tal situação não pode acontecer em nenhuma instância das polícias brasileiras. Dias depois da prisão do senhor Duda Mendonça, houve uma ordem à Corregedoria da Polícia Federal para que passasse um pente fino no procedimento. O fato é que nada encontraram de ilegal, pois, para se ter uma idéia, ninguém foi algemado durante a operação. Não que seja irregular algemar, mas fazê-lo sem necessidade não é recomendável. Se alguma irregularidade tivesse sido encontrada, certamente o fato já teria tomado proporções inimagináveis. E por cumprir a lei, tenho fama de rebelde, enquanto o delegado Pompílio da Hora, de desequilibrado.   

U.H. – Os senhores acreditam que os novos policiais que assumiram as investigações foram devidamente orientados por seus superiores, devendo deflagrar determinadas ações que busquem o abafamento do caso, ou é uma possibilidade remota dentro da Polícia Federal. Estaria ocorrendo algum tipo de pressão vinda de Brasília, mais precisamente da sede da PF ou do Ministério da Justiça? É possível revelar nomes?   

Rayol – Não posso afirmar isso, mas se for feita uma pesquisa com o nome do delegado que assumiu o inquérito 133/2004, é possível descobrir que no passado esteve à frente do inquérito que investigou inclusive o banqueiro Daniel Dantas, tendo intimado uma pessoa ligada ao então ministro José Serra, atual prefeito de São Paulo. Chamado por seus superiores, o delegado negou qualquer possibilidade de cancelar a intimação, situação que acabou fazendo com que José Serra disparasse uma frase contundente: “o delegado pode falar o que quiser, mas será responsabilizado pelo que disser”. Resumindo, o delegado foi afastado do inquérito e da delegacia. Ou seja, sua indicação para presidir o inquérito 133 foi estrategicamente planejada, pois ele já conhece as conseqüências.   

U.H. – A participação das Ong’s e das entidades de proteção aos animais tem sido decisiva para que o caso não caia no esquecimento? Elas colaboram positivamente através de pressões e cobranças?   

Pompílio da Hora – É muito positiva a participação das Ong’s e demais entidades de proteção aos animais, o que acabou se transformando em uma espécie de fôlego para aqueles que estavam envolvidos no inquérito. No início das investigações o delegado Rayol me alertou para isso, mas só vim a perceber tal situação no decorrer dos trabalhos.   

Rayol – Sentimo-nos muito apoiados e temos certeza de que as Ong’s ainda farão muito nesse caso. A vice-presidente do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, Ana Maria Pinheiro, a qual não conheço pessoalmente, tem sido de uma importância vital para todo o processo, pois ela não se baseia apenas em nossas informações, mas vai a fundo com pesquisas e outros mecanismos de busca, descobrindo dados que nem mesmo nós tínhamos conhecimento.   

U.H. – Já foi cogitada a possibilidade de se pedir ajuda a organismos internacionais para pressionar o governo brasileiro a encontrar uma solução justa e coerente para o caso?   

Rayol – O advogado que nos dá assistência já cogitou a possibilidade de recorrer a algum organismo nacional ou internacional, denunciando o caso. Entre as várias medidas judiciais que estão sendo estudadas, não se descarta nenhuma possibilidade, porque quem leu as notícias publicadas até então, nós fomos afastados da delegacia. Daqui a alguns anos, quando alguém for pesquisar sobre o assunto, vai se deparar com informações inverídicas que não traduzem, nem mesmo de longe, a verdade dos fatos. Como a expressão “afastado” traz uma carga muito pesada, não vou permitir que isso aconteça depois de vinte e sete anos de Polícia Federal.   

U.H. Durante as investigações os senhores encontraram nomes de políticos ou de pessoas nacionalmente famosas, ou nada disso ocorreu?   

Rayol – Não, nós não encontramos. Nós ouvimos dizer, depois da operação policial, que no dia estariam presentes prefeitos e vereadores de cidades de pequeno e médio porte de outros Estados, mas como são pessoas não muito conhecidas, acabaram sendo identificadas sem que soubéssemos do status político de cada uma delas.   

U.H. – O deputado João Corrêa (PMDB-AC) pediu ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, informações sobre os motivos que levaram à transferência dos dois agentes e à transferência dos senhores, todos participantes da operação que culminou com a prisão do publicitário Duda Mendonça. O ministro Márcio Thomas Bastos tem outra saída, que não continuar insistindo na tese do ato de rotina?   

Rayol – Não, ele não tem outra opção. O ministro não tem em suas mãos nada de concreto para mudar o discurso, sendo assim, terá que continuar dizendo que tudo não passou de um ato de rotina. Há poucos dias, em uma reportagem, o assessor de imprensa da DPF disse que o meu ato teria sido uma questão de indisciplina, pois a administração não concorda com a minha postura. Gostaria muito que alguma dessas pessoas que falam em indisciplina sentasse diante de mim e dissesse que tipo de irregularidade cometi. Eles podem apontar, agora, atos posteriores, como a entrevista que estamos lhe concedendo. Não tenho a menor dúvida de que, dependendo do teor do que for publicado, poderão instaurar uma sindicância. Até agora não chegou o momento de revidarmos em juízo, através de ações judiciais ou audiências públicas no Congresso Nacional, tudo aquilo que estamos sofrendo por ter dado cumprimento ao que determina a legislação.   

U.H. – Que tipos de conseqüências os senhores esperam não apenas por estarem insistindo para que o assunto não caia no esquecimento, mas, principalmente, por estarem tornando públicas as mazelas dos bastidores do caso?   

Pompílio da Hora – Espero que os responsáveis por esses atos sejam obrigados a acertar suas contas com a Justiça e, posteriormente, conosco. Isso é algo que de fato estamos buscando, o que justifica o dedicado trabalho do advogado que está nos assistindo. Dentro do discurso do delegado Rayol, a minha esperança é que os nossos pares mudem a postura de aceitar determinadas situações e se posicionem contrariamente a decisões abusrdas. Os prejuízos que a interrupção da investigação está proporcionando à sociedade brasileira é algo difícil de ser mensurado.   

Rayol – Quero deixar claro que o acontece comigo e com o delegado Pompílio da Hora não é de responsabilidade da Polícia Federal, mas de um grupo, de no máximo quatro pessoas, que está agindo para atender algumas autoridades, não sem antes visar alguns interesses pessoais. Essas pessoas preferem ficar bem com alguém que tenha acesso ao ouvido do presidente Lula, se é que já não houve recebimento de algum tipo de vantagem, fato que se não posso afirmar que ocorreu, não posso, da mesma forma, garantir que não aconteceu. Tenho certeza que a esmagadora maioria dos delegados federais não concorda com isso, mas infelizmente o grupo que hoje manda na Polícia Federal está permitindo que tal situação aconteça. Espero, sim, que esse tipo de cultura que existe dentro da Polícia Federal – herança maldita da ditadura militar – acabe. Da mesma maneira que espero que os responsáveis sejam punidos, lembrando que só desistirei deste caso se morrer.   

U.H. O ser humano tem, até mesmo por uma espécie de defesa inconsciente, o hábito de nutrir um certo tipo de repúdio em relação àqueles que o incomodam ou prejudicam. Os senhores têm alguma mágoa da notoriedade do publicitário Duda Mendonça?   

Rayol – Pessoalmente não tenho nada contra o senhor Duda Mendonça, tanto é assim que, antes desse evento, ouvia falar dele, mas não seria capaz de reconhecê-lo na rua. Só acho estranho, como já disse, que uma pessoa, com a projeção que ele tem, não faça questão de esconder um gosto que é uma prática criminosa. Ele tem todo o direito de gostar de rinhas de galos, mas em hipótese alguma pode fazer apologia disso. As rinhas são proibidas no país desde 1943, e se ele tem isso como hobby, é melhor que encontre uma nova maneira de gastar o tempo. O senhor Duda Mendonça bem que poderia abrir um orfanato ou um asilo para idosos, ao invés de se dedicar a práticas criminosas. É uma pena que esse seja o país onde nasci e vivo.   

Pompílio da Hora – Faço minhas as palavras do delegado Rayol, pois não tinha nem mesmo noção de quem era o senhor Duda Mendonça. O meu universo de conhecimento não me levaria à situação dele. Conheci o publictário no momento da invasão do Clube Prive Cinco Estrelas, onde ele teve um tratamento absolutamente técnico. Não guardo nenhum tipo de mágoa do senhor Duda Mendonça ou de qualquer um dos investigados. No entanto, quanto à administração do DPF, os atos praticados por quem está no comando trazem reflexos que me levam a pensar em não prosseguir na carreira policial. Hoje, posso afirmar que em conseqüência dessas atitudes estou desencantado com nossa atividade. Mesmo sendo um policial novo, o que me deixa indignado é presenciar um delegado com a experiência do Dr. Rayol ser alvo de retaliações. A minha vontade é jogar a toalha e fazer outra coisa.   

Entrevistador: Ucho Haddad – Fonte: www.ucho.info