Políticas para abrigos de cães e gatos

POLÍTICAS PARA ABRIGOS DE CÃES E GATOS

Este é um documento da WSPA – World Society for the Protection of Animals, criado para orientação de seus funcionários e afiliadas.

Objetivo:

Apresentar questões fundamentais relativas à vida de animais em abrigos, especialmente cães e gatos. A ciência do Bem-Estar Animal é o fundamento básico deste trabalho, considerando que reúne informações que permitem promover qualidade de vida para os animais.

            www.wspabrasil.org

Sumário:

INTRODUÇÃO………………………………………………………………………………………………………………. 3

Conceitos Fundamentais ………………………………………………………………………………………………… 4

ESTABELECENDO POLITICAS PARA SEU ABRIGO ……………………………………………………….. 5

Admissão de novos animais………………………………………………………………………………………………5

Quantidade de animais abrigados ……………………………………………………………………………………..6

Esterilização ……………………………………………………………………………………………………………………7

Recolocação em novos lares – Adoção ……………………………………………………………………………….7

Eutanásia ……………………………………………………………………………………………………………………….8

O DESENHO DO ABRIGO………………………………………………………………………………………………..8

Espaço ……………………………………………………………………………………………………………………………9

Conforto ……………………………………………………………………………………………………………………….10

ESTABELECENDO ROTINAS NO ABRIGO …………………………………………………………………….10

Alimentação ………………………………………………………………………………………………………………… 11

Higiene e Limpeza …………………………………………………………………………………………………………11

Condições e manutenção das instalações …………………………………………………………………………12

Controle de Parasitos e doenças ……………………………………………………………………………………..13

Saúde mental dos animais ……………………………………………………………………………………………..13

Manejo dos animais ………………………………………………………………………………………………………13

CONDIÇÕES INDISPENSÁVEIS PARA MANUTENÇÃO DE ABRIGOS……………………………..14

FONTES CONSULTADAS ……………………………………………………………………………………………..15

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COORDENAÇÃO: Dra. Mariângela Freitas de Almeida e Souza (consultora WSPA)

COLABORAÇÃO: Dra. Rita Garcia (consultora WSPA), Dr. Nestor Calderón (consultor WSPA), Dra. Rosângela Ribeiro (Gerente de Programas Veterinários WSPA), Elizabeth Mac Gregor (Gerente de Desenvolvimento WSPA)

EDIÇÃO: Unidade de Desenvolvimento de Afiliadas, WSPA-Sociedade Mundial de Proteção Animal, 2011.

WSPA Brasil

Av. Princesa Isabel, 323 – 8º andar, Copacabana, 22011-901, Rio de Janeiro, RJ.

Telefone: 21 3820-8200

Fax: 21 3820-8229

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POLÍTICAS PARA ABRIGOS DE CÃES E GATOS

INTRODUÇÃO

A WSPA – Sociedade Mundial de Proteção Animal é uma federação de ONGs de proteção animal fundada há quase 30 anos. Atualmente trabalha com mais de 1.000 afiliadas em 156 países e, no Brasil, conta com uma rede de mais de 100 afiliadas em 23 estados.

Este guia tem por objetivo apresentar questões fundamentais relativas à vida de animais em abrigos, especialmente cães e gatos. A ciência do Bem-Estar Animal é o fundamento básico deste trabalho, considerando que reúne informações que nos permitem promover melhor qualidade de vida para os animais.

Um abrigo de cães e de gatos é um local que reúne e cuida de um número considerável desses animais, em sua maioria recolhidos das ruas ou entregues pelo próprio proprietário que não quer ou não pode mais cuidar deles. Um abrigo de animais tem três tarefas principais: 1. ser um refúgio seguro para os animais que dele precisam; 2. funcionar como local de passagem, buscando a recolocação desses animais para lares definitivos; 3. ser um núcleo de referência em programas de cuidados, controle e bem-estar animal. Como um dos seus objetivos principais, um abrigo deve planejar programas de adoção permanentes, recolocando os animais em novos lares, o mais rápido possível, onde eles poderão ter uma nova chance de conviver com uma família e, dessa forma, serem reinseridos na sociedade. O abandono e os maus-tratos sofridos no passado geram, nesses animais, transtornos psicológicos diversos, especialmente ansiedade, insegurança e vulnerabilidade emocional. A recolocação em um novo grupo familiar, seguro e acolhedor, é fator primordial para o desenvolvimento / restabelecimento da saúde física e mental desses animais, concorrendo para sua estabilidade emocional. Para sua recolocação, no entanto, esses animais precisam do abrigo para sua pronta reabilitação física e comportamental e para o encontro de famílias e lares apropriados. Paralelamente a essa função, um abrigo também deve atuar como multiplicador dos conceitos de bem-estar animal, guarda responsável de animais e das ações mais eficientes para o controle populacional de cães e gatos, tendo conhecimento da política pública estabelecida na cidade e das possibilidades de parceria para o desenvolvimento de melhor tratamento para os animais na sociedade. Para tanto, são necessárias capacitações periódicas de todos os profissionais que trabalham no abrigo, com vistas ao seu próprio bem-estar físico e mental e a uma interação harmoniosa com os animais.

ABRIGO = LOCAL DE PASSAGEM

Embora inúmeras organizações vejam a instalação de um abrigo de animais como uma necessidade premente em sua comunidade, reconhecemos que essa nem sempre é a melhor solução. Abrigos são caros, tanto em sua construção quanto em sua manutenção, e requerem uma grande capacidade de planejamento e de organização. Abrigos também não resolvem efetivamente o problema do abandono de animais a médio e a longo prazos.

CONCEITOS FUNDAMENTAIS:

Bem-estar Animal – “A condição fisiológica e psicológica na qual o animal de companhia é capaz de adaptar-se comodamente ao entorno, podendo satisfazer suas necessidades básicas e desenvolver suas capacidades conforme a sua natureza biológica”. Calderón, N. 2009

Necessidades dos animais: animais humanos e não humanos possuem necessidades básicas que podem ser agrupadas em 5 categorias:

1 – fisiológicas e sensoriais: fornecendo água fresca e uma dieta balanceada que mantenha os animais saudáveis e vigorosos; garantindo a prevenção, rápido diagnóstico e tratamento de doenças, lesões e dor; promovendo exercícios e brincadeiras, além de estímulos sensoriais do tipo químico (odores, feromônios), visual (pessoas e outros animais), auditivo (controle de latidos e barulhos) e tátil (interações com animais e pessoas, carícias, massagens e escovação regular);

2 – físicas e ambientais: providenciando espaço suficiente e apropriado para definir suas áreas de atividade, por exemplo: para descanso e para dormir confortavelmente, para se abrigar e se esconder ou isolar, para eliminação de fezes/urina, etc.; garantindo condições adequadas de sol/sombra, temperatura, umidade, ventilação, iluminação, distribuição e acesso a comedouros e bebedouros, boa higienização e desinfecção, quando for necessária;

3 – comportamentais: providenciando um ambiente apropriado e companhia de animais de sua própria espécie para expressar sua vida e comportamento natural, por exemplo: definir seu território e delimitar seu espaço (áreas de atividade), construir um ninho, cuidar dos filhotes, fuçar a terra, correr, saltar, brincar, competir, socializar, etc.; garantindo um bom nível de atividade e a oportunidade de escolha (preferências) e alternância dos seus comportamentos;

4 – sociais: proporcionando atividades e companhia de animais e pessoas, garantindo suas preferências por viver isolado, em par ou em grupo; garantindo uma boa socialização aos filhotes de cães (3ª – 12ª semanas de vida) e aos filhotes de gatos (2ª – 8ª semanas de vida); oferecendo oportunidades de interações, modulando os conflitos e brigas, identificando a organização social (hierarquia) dentro dos canis; garantindo a presença de áreas de isolamento e de afastamento para os gatos, reconhecendo o uso do seu espaço;

5 – psicológicas e cognitivas: promovendo estimulação ambiental (sensoriais), psicológica e social, incluindo, por exemplo, atividades recreativas e exploratórias, de modo a prevenir o tédio e a frustração, além de outras emoções negativas como o medo (ansiedade), tristeza (depressão), angústia, estresse, etc.; assegurando condições e tratamento que evitem sofrimento mental.

Animais em cativeiro, como os que vivem em um abrigo ou em um zoológico, por exemplo, são totalmente dependentes dos humanos para lhes providenciar as condições que irão satisfazer as suas necessidades básicas. E é muito importante que todas as suas necessidades possam ser atendidas.

As “Cinco Liberdades” – o bem-estar dos animais pode ser avaliado por meio desse instrumento, que foi desenvolvido através do Conselho para o Bem-Estar de Animais de Fazenda, na Inglaterra – http://www.fawc.org.uk/freedoms.htm.

Esse instrumento se constitui em uma ferramenta útil para a verificação inicial das condições de quaisquer animais, inclusive de animais em um abrigo, as quais poderiam ser avaliadas assim:

– Livre de fome e de sede – pelo fornecimento de água fresca e uma dieta balanceada que mantenha os animais saudáveis e vigorosos;

– Livre de dor, lesões e doenças – pela prevenção ou rápido diagnóstico e tratamento;

– Livre de medo e estresse – assegurando condições e tratamento que evitem sofrimento mental;

– Livre de desconforto – providenciando ambiente apropriado, incluindo abrigo e área para descanso confortáveis;

– Livre para expressar comportamento normal – providenciando espaço suficiente, proporcionando atividades e companhia apropriada de animais de sua própria espécie.

Uma das mais importantes contribuições da ciência do Bem-Estar Animal é que seus estudos desenvolveram uma nova atitude do homem frente aos animais e, consequentemente, uma mudança no que diz respeito à forma como são percebidos, tratados e atendidos em suas necessidades. A ciência do Bem-Estar Animal ampliou e apurou o olhar do homem sobre os animais, levando-o a reconhecer que eles precisam de mais do que água e alimento, higiene e cuidados veterinários. Os animais, especialmente os mamíferos, são inteligentes e capazes de experiências emocionais ricas, comunicam-se de forma complexa, são curiosos e criativos, conscientes do mundo à sua volta, algumas espécies, inclusive, autoconscientes, como os grandes primatas, sendo, portanto, impactados com o confinamento, o isolamento e um ambiente estéril. Sendo assim, um conceito moderno de abrigo é aquele que prevê, em sua construção e em seu funcionamento, além do atendimento às necessidades alimentares, de higiene e de saúde, o fornecimento de um ambiente que também atenda às necessidades psicológicas, sociais e comportamentais dos animais, propiciando-lhes riqueza de estimulação, afeto e interação. Estamos falando de um modelo novo de abrigo, que só pode ser desenvolvido a partir da percepção de que os animais têm uma vida mental rica e complexa.

Os cães e os gatos precisam ser atendidos em todas as suas necessidades básicas. Sendo assim, o uso do conceito das “Cinco Liberdades” mostra-se como uma ferramenta objetiva para avaliar em que condições eles estão vivendo.

ESTABELECENDO POLÍTICAS PARA SEU ABRIGO

O estabelecimento de políticas auxilia o funcionamento de sua organização, constituindo-se em padrões mínimos de ação que tornarão as rotinas mais eficientes no seu dia-a-dia. Elas também refletem os princípios básicos que sua organização considera como primordiais.

Decisões políticas muito importantes referem-se à admissão de novos animais e quantidade de animais a serem abrigados, esterilização, recolocação de animais em novos lares e eutanásia. Essas questões vão influenciar o modo como o abrigo vai funcionar, o tempo de permanência do animal no abrigo e sua qualidade de vida.

Essencial também é estabelecer políticas para um bom relacionamento com a comunidade em geral e com os médicos veterinários da região, tanto os que atuam em clínicas particulares quanto os que trabalham nos órgãos governamentais, buscando colaboração e parcerias. O desenvolvimento de projetos em conjunto com a comunidade, tais como a construção de uma rede de lares temporários e um programa de marketing para adoção de animais, poderá tornar mais eficiente a realização dos objetivos principais do abrigo.

Ao estabelecer as políticas para seu abrigo, algumas questões devem ser consideradas:

– os objetivos da organização;

– os benefícios almejados e que podem ser proporcionados aos animais;

– os custos e seu financiamento;

– a opinião do público sobre a organização;

– a efetividade da atuação;

– a equipe de trabalho necessária;

– o manual de operações e seus responsáveis;

– os protocolos e as estratégias para tomada de decisões.

É importante considerar as consequências que a política estabelecida trará para sua organização, inclusive em termos financeiros e de opinião pública. Sua organização terá que arcar com os custos de implementação dessa política, ainda que seja tida como benéfica e relevante.

ADMISSÃO DE NOVOS ANIMAIS

A admissão de novos animais deve ser motivo de análise objetiva e de planejamento. Antes do aceite, é preciso verificar se há vaga, considerando o limite de capacidade do abrigo em função do espaço e do orçamento. Não havendo vaga, pode-se considerar a opção de encaminhar o animal para lares temporários, quando houver essa possibilidade.

A entrada e a saída de todos os animais devem ser eficientemente controladas, através de um registro diário, sob supervisão da gerência do abrigo, o qual deve ser revisto, no mínimo, semanalmente. As anotações podem ser feitas, a princípio, manualmente pelos funcionários, por uma questão de economia de tempo, para depois serem passadas para a forma digital.

Cada animal deve ter sua ficha individual, onde constará seu histórico, com todas as informações pertinentes a ele, desde o dia de sua admissão até sua saída (por adoção ou falecimento).

Cada recinto (canil ou gatil) deve ter à vista uma ficha com os nomes de seus ocupantes e quaisquer outras informações básicas necessárias (como prescrição de medicamentos, dieta, problemas de comportamento).

Cada animal admitido no abrigo deve ser examinado por um médico veterinário e classificado nas seguintes categorias:

– animal saudável;

– animal com lesão ou alteração de saúde leve ou moderada;

– animal com lesão ou alteração de saúde severa;

– animal com doença infecciosa.

Após a avaliação admissional e a classificação do estado de saúde de cães e gatos, todos os animais devem ser colocados em canis/gatis individuais para quarentena – cães por um mínimo de 10 dias e gatos por um mínimo de 14 dias, sendo imediatamente tomadas as providências com cuidados e tratamento veterinário, no caso de animais que não estejam saudáveis. Qualquer animal que, nesse período, apresentar sintoma de doença infecciosa deve ser mantido em quarentena por no mínimo 21 dias (período de incubação da maioria das doenças infecciosas). Esse tempo, no entanto, pode ser ajustado para mais ou para menos, de acordo com o período de incubação das doenças infecciosas mais comuns prevalentes na região em que se encontra o abrigo.

É muito importante que haja uma área específica para quarentena no abrigo, longe das áreas comuns dos canis e gatis. É essencial que não haja nenhum contato entre animais em quarentena ou entre animais em quarentena e aqueles dispostos para adoção.

Após o período de quarentena, e antes de passarem aos canis/gatis definitivos, os animais devem ser novamente examinados pelo médico veterinário, vacinados, limpos de parasitas externos, desverminados e esterilizados.

O período em quarentena oferece a oportunidade de avaliar o animal em relação a problemas clínicos ou comportamentais. Essas informações auxiliarão no planejamento de seu agrupamento com outros animais nas instalações coletivas e na recolocação em novos lares. Esses dados devem sempre ser registrados.

QUANTIDADE DE ANIMAIS ABRIGADOS

Cada área tem sua “capacidade-limite”. Sendo ultrapassada, problemas os mais diversos deverão surgir, prejudicando ou até inviabilizando as atividades previstas. No caso de um abrigo ou de qualquer local que reúna e cuide de animais, a ultrapassagem dos limites com relação à sua quantidade deverá implicar no aumento de lesões, doenças e mortes, em virtude da elevação do nível de estresse e de contaminação, da redução do espaço e do conforto, da redução da qualidade e mesmo da quantidade de alimento e de assistência, do aumento de brigas e de diferentes alterações comportamentais. É muito importante, portanto, que a quantidade de animais que será admitida e mantida no abrigo seja planejada e que seus limites sejam estabelecidos, levando-se em conta, principalmente, o espaço disponível, o orçamento e o quadro de pessoal.

Uma forma simples de estabelecer quantos animais, ao máximo, o abrigo pode comportar, levando-se em consideração o espaço disponível, é dividir a área total destinada ao alojamento dos animais pela área mínima necessária para cada animal. Veja os exemplos abaixo. No caso do canil a tabela abaixo demonstra como calcular a quantidade máxima de animais numa área que, neste exemplo, possui 500 m².

Canil: área externa/ área interna      www.kenneldesign.com
Área total para alojamentos dos animais 500 m²
Área mínima necessária para 1 animal 5 m²
Quantidade máxima de animais 100

Gatil: semi-externo

http://www.catterydesign.com

Área mínima necessária para 1-2 / Grupo >4 2m² / 10m²
Área em m³ por gato (760 mm x 1220 mm x 915 mm) 0.84 m³
Área total e quantidade de animais 30m x 15

O cálculo do número máximo de animais que o abrigo pode comportar não se conclui, no entanto, unicamente em função do espaço disponível. É preciso também incluir nesse cálculo o orçamento e o número de pessoas que compõem o quadro de pessoal da organização. Se o orçamento não é suficiente para garantir alimentação de boa qualidade, assistência veterinária, enriquecimento ambiental, higiene e manutenção das instalações, pessoal em número suficiente para propiciar os cuidados necessários aos animais, entre outros itens fundamentais, ainda que haja espaço para um determinado número de animais, esse número deve ser estrategicamente reduzido para se adequar ao orçamento e pessoal disponíveis.

ESTERILIZAÇÃO

A esterilização de cães e de gatos tem como propósito o controle dessa população e é um elemento fundamental na difusão do conceito de guarda responsável de animais.

A melhor recomendação é esterilizar todos os animais do abrigo e, especialmente, aqueles que vão ser recolocados em novos lares. Incluir como política do abrigo a recolocação somente de animais esterilizados é uma forma de educar e prevenir, de certa maneira, que esse animal volte a ser abandonado ou que perpetue o problema gerando novas ninhadas. Frente a essa questão, é fundamental considerar os custos. Utilizar técnicas menos invasivas e profissionais mais experientes pode ser uma forma de garantir procedimentos de melhor qualidade e de menor custo. As técnicas cirúrgicas mais modernas permitem a esterilização de cães e gatos a partir das oito semanas de idade.

Apesar da esterilização de machos ser menos onerosa, idealmente todos os animais do abrigo devem ser esterilizados. Dessa forma, pode haver, no abrigo em geral, diminuição do estresse, das brigas e do barulho produzido pelos animais. A castração dos machos pode prevenir doenças, inclusive câncer de próstata e de testículos, e reduzir brigas, fugas e eliminação inapropriada de urina e fezes. A esterilização das fêmeas reduz o risco de piometra (grave infecção do útero) e de câncer de mama e aumenta as chances da cadela ser adotada.

RECOLOCAÇÃO EM NOVOS LARES – ADOÇÃO

A recolocação de animais em novos lares, através do planejamento de programas de adoção permanentes, deve ser uma das metas prioritárias de um abrigo. Essa recolocação deve ser realizada o mais breve possível, certamente sendo tomados todos os cuidados para que seja garantido ao animal, no novo lar, o atendimento a suas necessidades básicas, inclusive de afeto e atenção. Em novos lares bem selecionados, os animais poderão ter uma nova chance de conviver intimamente com uma família, condição que, por se tratarem de espécies sociais e de convívio estreitamente afetivo com grupos humanos há séculos, apresenta-se como uma de suas necessidades. Um longo período de tempo em um abrigo, em virtude de fatores próprios da condição de institucionalização, pode gerar estresse e produzir alterações de comportamento, desde as mais leves até aquelas classificadas como graves e difíceis de corrigir.

Ter pessoas que trabalham com educação/adestramento pode diminuir os riscos de animais adotados serem devolvidos ou novamente abandonados, auxiliando na integração do animal à família. A adoção do animal que aprende comandos básicos como “senta”, “fica” e “andar ao lado” pode, também, ser facilitada.

Sua política de recolocação de animais em novos lares, portanto, afetará diretamente a quantidade de tempo que eles passarão no abrigo. Além disso, é uma política que será de grande influência na amplitude numérica do abrigo. O rigor em estabelecer critérios para os adotantes potenciais poderá reduzir o número de lares aceitáveis para adoção, no entanto, esses cuidados podem reduzir riscos desses animais serem maltratados nos novos lares, retornarem ao abrigo ou serem novamente abandonados. Entender que uma vaga aberta no abrigo, devido à recolocação de um animal, poderá estar favorecendo um outro animal que está em grande sofrimento na rua, poderá auxiliar na construção dos procedimentos operacionais padrão (POP) para a adoção.

Ao planejar sua política de recolocação de animais você deve fazer as seguintes considerações:

1. Doar animais somente para adotantes que atendam a critérios mínimos estabelecidos pela sua organização e verificados a partir de um questionário ou de uma entrevista com o mesmo; o questionário ou a entrevista lhe darão a oportunidade de perceber a compreensão do adotante potencial sobre os princípios da guarda responsável;

2. Dependendo do número de funcionários e de voluntários da instituição, pode ser incluída no POP da adoção uma visita prévia à residência do adotante, permitindo avaliar, principalmente, as questões básicas relativas ao espaço destinado ao animal e barreiras físicas que impeçam a saída do mesmo;

3. Avisita se faz importante também após um período pré-estabelecido da adoção. Dessa forma, pode ser verificado melhor o relacionamento do animal com a família e como ele está sendo realmente mantido. Se possível, deve-se colocar à disposição do adotante orientação comportamental, mesmo que através de contato telefônico, uma vez que os problemas comportamentais são uma das causas mais comuns de abandono de animais.

Toda adoção de animal deve ser registrada e feita com o uso de Termo de Compromisso de Adoção, assinado pelo adotante e pelo funcionário do abrigo, o qual selará as condições e responsabilidades do adotante e o direito do abrigo de reaver o animal sempre que essas responsabilidades e condições não estiverem sendo cumpridas.

Todo animal encaminhado para adoção deve ser esterilizado, inclusive filhotes a partir de 8 (oito) semanas de idade. O animal deverá sair, também, com atestado de vacinação e desverminação e, se possível, com um histórico completo, possibilitando, dessa forma, que a família venha a ter uma identificação mais forte com ele.

Sendo possível, uma sugestão útil é pesquisar as causas do abandono de animais nas regiões próximas ao abrigo e nas regiões a que o abrigo tem acesso ou influência. De posse dessas informações, com a adoção das estratégias apropriadas, a organização poderá influenciar na redução gradual dessa prática.

EUTANÁSIA

Decidir em que circunstâncias um animal será eutanasiado é, sem dúvida, uma das mais difíceis decisões políticas e emocionais de sua organização. Ao planejar uma política de eutanásia, deve ser considerada a legislação pertinente a essa questão, como também identificar os prós e contras dessa decisão. Em qualquer situação, a saúde e o bem-estar dos animais deve ser o parâmetro para a decisão. Deve-se também analisar cada caso individualmente e, se possível, compartilhar a decisão, por exemplo, entre dois médicos veterinários e um funcionário do abrigo ou entre um médico veterinário e um membro da direção da organização. A eutanásia deve ser realizada somente por médico veterinário, seguindo sempre a legislação vigente sobre o assunto, especialmente as normas reguladoras do Conselho Federal de Medicina Veterinária.

Os métodos aceitáveis de eutanásia são aqueles que promovem uma morte humanitária, sem dor, sem estresse ou qualquer tipo de sofrimento físico ou mental. As substâncias mais recomendadas para tal procedimento são os barbitúricos, podendo ser acompanhados ou não de pré-anestésicos e de outras substâncias após a anestesia geral.

Protocolo recomendado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária:

Informações do Boletim Epidemiológico Paulista (BEPA) – Volume 6 – Maio 2009 – ISSN 1806-4272 – ftp://ftp.cve.saude.sp.gov.br/doc_tec/outros/bepa_suple7v6_caesgatos.pdf

O DESENHO DO ABRIGO

Canis e gatis devem ser planejados de modo a proporcionar conforto, segurança e proteção das intempéries. Ao planejar o desenho de um abrigo, deve-se considerar:

– as necessidades dos animais, por exemplo, espaço, conforto, segurança, insolação;

– as necessidades da equipe de trabalho;

– as necessidades das pessoas que visitam o abrigo.

No planejamento do desenho de um abrigo, evitar a disseminação de doenças deve ser um dos primeiros cuidados. Os animais que chegam devem ser alojados individualmente, em área de quarentena, a qual deve estar distante da área onde ficarão os animais saudáveis, prontos para adoção. A área de quarentena também não deve estar acessível ao público.

São também necessárias áreas próprias para fazer o tratamento e a medicação dos animais e para o preparo de sua alimentação. Um espaço amplo para recreação e exercícios dos animais também precisa estar incluído no desenho. Animais mortos devem ser mantidos em local específico, contendo um freezer, até sua destinação final, conforme as normas sanitárias vigentes.

ESPAÇO

O espaço ocupado pelos animais deve ser construído de modo a garantir seu bem-estar e prevenir doenças, estresse, fugas e brigas.

A recomendação do tipo de canil (individual ou coletivo) vai depender de inúmeros fatores. Ambos têm vantagens e desvantagens. Como os animais não poderão “escolher” as suas matilhas ou grupos, como são territorialistas e se comportam em função de uma hierarquia social, especialmente os cães, estresse e problemas gerados pela reunião de grande número de animais podem ser reduzidos mantendo-os em pequenos grupos de dois, três e até quatro animais.

1. Para os cães é recomendado:

1.1 – Canis individuais: Canis individuais devem ser utilizados, preferencialmente, para fêmeas em estado de gestação evidente ou com filhotes, animais com comportamento agressivo que não se adaptam à companhia de outros, animais feridos ou em tratamento e animais com doenças infectocontagiosas. Cada cão deve dispor de um mínimo de2 metros quadradosde área coberta para descanso e abrigo das intempéries. Essa área deve conter uma cama/estrado confortável e espaço para vasilhas com alimento e água e ser construída de modo a evitar a entrada de sol, chuva e vento. Nesse ambiente, a temperatura mínima deve ser de 10°C e a máxima de 26°C. A área coberta para descanso deve ser bem ventilada e iluminada. Além da área coberta, cada cão requer também um mínimo de2,5 a3,5 metros quadradosde área aberta para banho de sol e pequenos exercícios. A área coberta deve ter passagem permanente para a área aberta. Os animais devem ter uma boa visão para fora dos canis.

1.2 – Canis coletivos: Canis coletivos não são apropriados para animais doentes, feridos ou amamentando; nesses casos, a preferência é a colocação em canis individuais até a mudança de sua condição. Cães agressivos devem permanecer com um número bem pequeno de outros cães, desde que bem adaptados entre eles, ou serem colocados em canis individuais, tendo-se o cuidado de propiciar-lhes espaço e tempo para exercícios, recreação e socialização. Canis coletivos também devem dispor de área coberta, para descanso e proteção das intempéries, e área aberta, para banho de sol e pequenos exercícios. O número de camas/estrados e de vasilhas para alimento e água deve corresponder ao número de animais alojados. O espaço mínimo requerido para cães que vivem em grupos é o mesmo que o requerido para um cão que vive em canil individual. Os animais só devem ser alojados em canil coletivo após cumprirem seu tempo na área de quarentena, com um mínimo de 10 dias de isolamento. Cuidados devem ser tomados para que não sejam reunidos animais incompatíveis quanto à faixa etária, porte e comportamento. Em canis coletivos deve-se utilizar a prática de esterilização de todos os animais ou a estrita separação por sexo.

Manter cães isolados ou presos a correntes ou a casinhas ou em qualquer espaço exíguo é totalmente contra-indicado e pode configurar maus-tratos, considerando suas necessidades físicas, psicológicas, comportamentais, sociais e ambientais.

A soltura diária dos cães, seja na forma de passeio individual ou reunidos coletivamente numa área livre, para que possam brincar, correr, se exercitar e interagir, é imprescindível para a redução do nível de estresse, que normalmente ocorre no cativeiro, e para atender a suas necessidades básicas. Cada cão deve ter a oportunidade de brincar e se exercitar diariamente, no mínimo, por dois períodos de meia hora ou por um período de uma hora.

2. Para os gatos é recomendado:

Há vantagens e desvantagens na utilização tanto de gatis individuais como dos coletivos. Para muitos felinos, poder ficar sozinho em uma instalação individual, tendo uma visão de outros animais quando deseja, com uma área para se esconder, quando se sente ameaçado, pode ser mais recomendado que os gatis coletivos.

2.1 – Gatis individuais: As instalações dos gatos devem ser separadas visual e acusticamente das instalações dos cães. Gatis individuais devem alojar, preferencialmente, fêmeas em estado de gestação evidente ou com filhotes, animais feridos ou em tratamento e animais com doenças infectocontagiosas. A área fechada mais a área aberta para banho de sol e exercício devem ter um mínimo de2,2 metros cúbicos, sendo a abertura voltada para frente. A parte fechada deve ter cama, prateleiras para subir e espaço para colocação de vasilhas com alimento e água, sendo construída de modo a evitar a entrada de sol, chuva e vento. Caixas de material lavável ou de papelão, para se acomodarem ou se esconderem, podem ser dispostas sobre as prateleiras. Caixas ou bandejas plásticas, contendo serragem, areia ou jornal picado podem ser usadas para os gatos fazerem a deposição dos dejetos e devem ser colocadas distantes dos comedouros e bebedouros. A área fechada deve ter passagem permanente para a área aberta. Uma boa ventilação é essencial e, quando os gatis estiverem posicionados de frente um para o outro, devem ser separados por um mínimo de 2 metros para prevenir a disseminação de doenças.

2.2 – Gatis coletivos – Uma boa ventilação é essencial em gatis coletivos. Gatos necessitam de acesso à área fechada, com espaço para vasilhas de alimento e água e cama, e acesso à área aberta. Os materiais e objetos relacionados acima também devem estar disponíveis nos gatis coletivos, como prateleiras, caixas para se acomodarem, bandejas higiênicas. Espaços ou caixas fechadas devem estar disponíveis para animais que preferem estar isolados. A temperatura mínima é de 10°C e a máxima não pode exceder 26°C. O tamanho máximo de um grupo é de 50 animais, mas grupos menores são recomendados. Alojados em grupos, deve-se fazer a esterilização de todos ou a separação estrita por sexo.

Manter gatos totalmente isolados, presos a correntes ou dentro de gaiolas ou em qualquer espaço exíguo é totalmente contra-indicado, considerando suas necessidades físicas, psicológicas, comportamentais, sociais e ambientais.

CONFORTO

O desenho e o funcionamento de um abrigo devem ser planejados de modo a propiciar uma estadia confortável e segura para os animais. É importante estar atento à conservação das estruturas, de modo a evitar ferimentos e outros problemas decorrentes do desgaste do material. Para atender às necessidades básicas dos animais no abrigo, deve-se oferecer espaço apropriado para a expressão de comportamentos naturais, como deitar e levantar confortavelmente, caminhar livremente, correr e brincar. As instalações devem promover um ambiente enriquecido, propiciando estímulos físicos e mentais, complexos e interativos, oferecendo, assim, uma melhor qualidade de vida aos animais.

É importante identificar os fatores geradores de estresse, como extremos de temperatura, ruídos e odores desagradáveis ou intensos, falta de atividade física e de vida social, competição intensa, confinamento prolongado.

A poluição sonora nos canis é um elemento que deve ser bem trabalhado. Há materiais que podem ser escolhidos para a construção ou divisão dos canis que são mais apropriados para reduzir a passagem dos ruídos. A altura do pé-direito da construção e o tipo de material utilizado no forro/telhado também vão ter grande influência sobre os ruídos. Para diminuir o estresse dos animais e dos funcionários, é importante avaliar essa situação e ter um profissional que indique os melhores caminhos para minimizar esses problemas.

ESTABELECENDO ROTINAS NO ABRIGO

Ações de rotina bem padronizadas e registradas por escrito vão assegurar que as operações diárias sejam realizadas de forma mais eficiente.

A rotina básica diária deve incluir os seguintes, dentre outros procedimentos:

– checar todas as instalações;

– observar os animais pelo menos duas vezes ao dia para verificar condições de saúde, comportamento e bem-estar;

– reportar ao médico veterinário ou ao responsável pelo abrigo a presença de qualquer sinal de lesão, doença ou alteração de comportamento nos animais;

– ajustar a ventilação e o aquecimento;

– limpar e desinfetar os canis, gatis e demais instalações;

– limpar e desinfetar os utensílios usados pelos animais;

– preparar e distribuir alimento e água aos animais;

– promover os cuidados veterinários e de higiene para cada animal;

– propiciar exercícios e lazer para todos os animais, favorecendo sua socialização;

– checar a segurança das instalações.

Assegure um ambiente limpo, confortável, seguro e saudável para cada animal.

Use o instrumento das “Cinco Liberdades” para avaliar os animais, as instalações e o ambiente em que vivem.

ALIMENTAÇÃO

Alimentação de boa qualidade, fornecida no mínimo duas vezes ao dia, constitui a base da alimentação dos cães. Filhotes requerem alimentação em maior número de vezes. No caso dos felinos, a ração pode ser deixada à vontade ao longo do dia. Todos os animais devem ter um suprimento permanente de água limpa e fresca. Devem ser planejadas rotinas diárias de administração de alimento e água, considerando a quantidade e a qualidade de nutrientes requeridos pelos animais, de acordo com a espécie, a faixa etária, o porte, a condição e o número de animais alojados. Devem também ser estabelecidos os horários de oferecimento e de trocas de alimento e de água. O alimento deve ser colocado em recipientes próprios, de fácil higienização e manuseio, e protegidos da chuva e do contato com dejetos, roedores ou insetos. Para os cães, o alimento deve ser oferecido em vasilhas individuais e, para os gatos, podem ser colocadas vasilhas em número suficiente para alimentar os animais em pequenos grupos.

A resposta dos animais ao alimento é uma forma de avaliar sua qualidade. O consumo fácil e voluntário do alimento é uma indicação de sua palatabilidade. A avaliação das fezes também é importante. Os animais, usualmente, defecam duas vezes por dia e as fezes devem se apresentar bem formadas, secas e fáceis de recolher. Fezes volumosas e amolecidas podem indicar duas situações: alimento de baixa digestibilidade e resposta fisiológica ao consumo excessivo de alimentos. Cães e gatos devem manter-se com peso apropriado em virtude do consumo de alimento de boa qualidade, apresentando também pele e pelos de boa qualidade, sem descamação, queda ou descoloração.

O armazenamento das rações deve ser feito em local próprio para essa finalidade, sendo acondicionadas em recipientes específicos para tal e colocadas sob plataforma de forma a evitar o contato direto com o piso. Esses cuidados visam sua melhor conservação e aproveitamento.

HIGIENE E LIMPEZA

Uma rotina de limpeza sistemática é essencial para evitar a disseminação de doenças e garantir o bem-estar. Considere as seguintes recomendações:

– todas as instalações ocupadas pelos animais devem ser limpas diariamente;

– os animais devem ser retirados enquanto o canil/gatil está sendo limpo;

– todos os objetos, tais como vasilhas e camas, devem ser movidos e limpos;

– piso e paredes devem ser rigorosamente limpos.

Observe os seguintes procedimentos de limpeza:

– remoção prévia de resíduos (fezes, emese e ração, entre outros), que deverão ser embalados, acondicionados e destinados à coleta, conforme legislação específica;

– lavagem com água limpa e sabão ou detergente neutros;

– desinfecção com produtos à base de hipoclorito de sódio 2,5% ou derivados de amônia quaternária;

– escoamento da água servida para a rede de esgoto, conforme legislação em vigor;

– secagem do ambiente em caso de umidade prolongada.

Muito cuidado deve ser tomado na escolha dos produtos que vão ser usados na limpeza e desinfecção das instalações e objetos usados pelos animais, de modo a evitar aqueles de odores muito fortes ou que possam causar problemas à saúde dos animais.

O nível de higiene das instalações pode ser avaliado numa escala que vai de BOM a MUITO POBRE. Considere as indicações abaixo para o nível de higiene:

– BOM: as superfícies dos canis/gatis estão secas, livres do acúmulo de fezes e urina e livres da presença de lixo ou qualquer material inservível; os animais podem se mover facilmente sem entrar em contato com excrementos, lixo e outros inservíveis; o comportamento normal não é dificultado; os animais podem descansar sem ter que entrar em contato com excrementos ou inservíveis; o comportamento normal de locomoção pode ser exibido e os animais podem adotar posturas corporais normais; as superfícies dos canis/gatis parecem ser limpas de forma regular e não há presença de odor desagradável;

– ADEQUADO: as superfícies dos canis/gatis estão menos limpas que as citadas anteriormente; elas podem estar secas em alguns locais e há algum acúmulo de fezes e urina dos animais; algum lixo ou outro material inservível pode estar presente; os animais não podem se mover facilmente sem entrar em contato com algum excremento ou outro material inservível; o comportamento normal pode ser dificultado ocasionalmente; os animais não podem descansar sem entrar em contato com algum excremento ou inservível; o comportamento normal de locomoção pode ser exibido e os animais podem adotar posturas corporais normais; as superfícies dos canis/gatis parecem ser limpas de forma menos regular que as citadas anteriormente; os canis/gatis exalam algum odor desagradável;

– POBRE: a superfície dos canis/gatis está suja e coberta de fezes e urina ou lixo e outros inservíveis acumulados há alguns dias; os animais não podem se mover sem entrar em contato com excremento ou outro material inservível; o comportamento normal é dificultado; os animais não podem descansar sem entrar em contato com excrementos ou inservíveis; o comportamento normal de locomoção é prejudicado e os animais não podem adotar posturas corporais normais; as superfícies dos canis/gatis não são limpas há dias ou semanas e exalam odor desagradável;

– MUITO POBRE: a superfície dos canis/gatis está muito suja e encoberta por fezes e urina acumulados há muitas semanas; há também acúmulo de lixo e outros materiais inservíveis; os animais não podem se mover sem entrar em contato com excremento ou outro material inservível; o comportamento normal é dificultado; os animais não podem descansar sem entrar em contato com excrementos ou inservíveis; o comportamento normal de locomoção é prejudicado e os animais não podem adotar posturas corporais normais; as superfícies dos canis/gatis não são limpas há meses e exalam forte odor desagradável.

CONDIÇÕES E MANUTENÇÃO DAS INSTALAÇÕES

As condições e o nível de manutenção das instalações são essenciais para garantir o conforto e o bem-estar dos animais, podendo ser avaliado em uma escala que vai de BOM a MUITO POBRE. Considere as indicações abaixo para sua avaliação do nível de manutenção das instalações:

– BOM: o tipo de construção e de material usado e as condições do canil/gatil não são capazes de provocar qualquer tipo de lesão ou dano aos animais; o canil/gatil pode ser limpo de modo efetivo; a estrutura e condições do canil/gatil não impõem restrições ao comportamento normal de descanso dos animais e à sua locomoção, nem impedem que eles adotem posturas corporais normais; há poucas evidências de desgaste e de estragos em suas superfícies e estruturas;

– ADEQUADO: o tipo de construção e de material usado e as condições do canil/gatil não são capazes de provocar, de modo geral, lesões ou danos substanciais aos animais; o canil/gatil pode ser limpo de modo efetivo, porém, a limpeza pode ser prejudicada pela falta de manutenção efetiva das superfícies; a estrutura e condições do canil/gatil não impõem restrições ao comportamento normal de descanso dos animais e à sua locomoção, nem impedem que eles adotem posturas corporais normais; há algumas evidências de desgaste e de estragos em suas superfícies e estruturas;

– POBRE: o tipo de construção e de material usado e as condições do canil/gatil são capazes de provocar lesão ou dano aos animais; a limpeza efetiva do canil/gatil é dificultada por causa da manutenção pobre, o que significa que as superfícies e estruturas estão danificadas; a superfície ou estrutura do canil/gatil é capaz de causar desconforto aos animais, impor restrições ao seu comportamento normal de descanso, à sua locomoção e impedem que eles adotem posturas corporais normais; há evidências significativas de desgaste e de estragos nas estruturas e superfícies; não é feita manutenção do canil/gatil há alguns anos;

– MUITO POBRE: o tipo de construção e de material usado e as condições do canil/gatil são capazes de provocar lesão ou danos substanciais aos animais; a limpeza efetiva do canil/gatil é dificultada por causa da manutenção muito pobre, o que significa que as superfícies e estruturas estão intensamente danificadas; a superfície ou estrutura do canil/gatil é capaz de causar grande desconforto aos animais, impor severas restrições ao seu comportamento normal de descanso, à sua locomoção e impedem que eles adotem posturas corporais normais; não é feita manutenção do canil/gatil há muitos anos.

CONTROLE DE PARASITOS E DOENÇAS

É fundamental a aplicação de produtos contra pulgas e carrapatos em todos os animais no momento em que chegam ao abrigo, evitando assim a disseminação desses ectoparasitas. Controlar insetos e parasitos do ambiente também é muito importante, cuidando para eliminá-los das instalações tanto quanto possível. Com esse propósito, o depósito de alimentos deve ser mantido coberto e o reservatório de água fechado.

Medidas de prevenção de doenças, diagnóstico e tratamento rápidos são condutas essenciais para manter os animais saudáveis. O abrigo deve contar com médico veterinário em sua equipe o qual fará a primeira avaliação dos animais admitidos e seu acompanhamento durante toda a sua estadia, participando do planejamento e execução dos diferentes programas do abrigo. A vacinação anual de todos os animais, contra a raiva e contra as demais viroses próprias de cada espécie, é indispensável. Realizar, periodicamente, tratamentos contra parasitos internos e externos, também é fundamental. A observação de inatividade ou inquietude, irritabilidade, rigidez postural, vocalização anormal, inapetência, lambidas e mordeduras autoinfligidas podem ser sinais de dor ou doença. O aumento do índice de mortalidade ou do número de animais doentes requer a pronta investigação de suas causas e a tomada imediata de medidas apropriadas.

Todas as precauções possíveis devem ser tomadas para prevenir e controlar a disseminação de doenças infecciosas entre os animais. Qualquer sinal de doença infecciosa deve ser imediatamente tratado, o animal isolado e medidas sanitárias tomadas para evitar sua disseminação.

SAÚDE MENTAL DOS ANIMAIS

O estresse ou o sofrimento mental podem ser identificados através de alguns comportamentos observados nos animais, tais como hipervigilância, inatividade prolongada, isolamento, irritabilidade, estereotipias, compulsões, tiques, agressão excessiva, medo excessivo ou fobias. Promover a saúde mental dos animais é tão importante quanto garantir sua saúde física. Para tanto, é preciso prover o atendimento a necessidades que vão além de dar-lhes água, alimento, um ambiente limpo e assistência veterinária. Cães e gatos necessitam de um ambiente estimulante e rico, que lhes aguce a curiosidade e a vontade de explorar, que lhes provoque desafios e oportunidade de novos aprendizados, com espaço suficiente para que possam se exercitar e se divertir, que lhes permita interagir e formar laços afetivos com pessoas e outros animais. Ao mesmo tempo, esse ambiente deve ser seguro, livre de ameaças vindas de pessoas ou de outros animais e, se diante delas, que lhe possibilite afastar-se, fugir e se esconder.

Uma estratégia para diminuir o estresse físico e mental, característicos do cativeiro, que deve ser adotada por todos os abrigos, é promover passeios diários ou demarcar uma área mais extensa em que os animais possam ser soltos coletivamente. A recreação e os passeios são oportunidades valiosas de socialização, sendo importante que, nesses momentos, façam contato positivo com pessoas e com outros animais e possam realizar atividades lúdicas e estimulantes, que lhes exercitem o físico e a mente.

MANEJO DOS ANIMAIS

O abrigo deve possuir um quadro próprio de funcionários para tratar dos animais e atendê-los em suas necessidades essenciais, devendo ser selecionados com base em sua afinidade e interação positiva com animais. A proporção no de funcionários / no de animais deve ser tal que as tarefas de rotina possam ser completadas adequadamente todos os dias. O abrigo deve ter pessoal trabalhando e cuidando dos animais todos os dias do ano. Capacitá-los para os cuidados essenciais com os animais e para um manejo etológico, com base na compreensão do comportamento próprio de cães e gatos, é muito importante para uma atuação eficiente e pautada no respeito. Toda a equipe do abrigo deve estar informada sobre as zoonoses de cães e de gatos, preparada para evitar qualquer tipo de contaminação e imunizada no mínimo contra o tétano e raiva.

CONDIÇÕES INDISPENSÁVEIS PARA MANUTENÇÃO DE ABRIGOS:

Considerando os elementos fundamentais para se estabelecer uma política de funcionamento de um abrigo, descritos neste trabalho, relacionamos abaixo as condições indispensáveis para a manutenção de um abrigo, sem as quais não há bem-estar mínimo para os animais. Um sistema administrativo sólido, tendo um conjunto claro de procedimentos, monitoramento, registros, linhas de comunicação e responsabilidades, é essencial para um abrigo ser bem gerenciado.

1. Limite do número de animais abrigados, calculado em função do espaço e do orçamento disponíveis;

2. Registro da entrada e da saída de todos os animais e histórico dos animais registrado em fichas individuais;

3. Médico veterinário responsável;

4. Alojamentos apropriados para a espécie, construídos e mantidos de forma a oferecer espaço, conforto e segurança;

5. Limpeza e organização do ambiente e das instalações;

6. Medidas de prevenção de doenças e rápido diagnóstico e tratamento dos animais;

7. Alimentação de qualidade e na quantidade apropriada;

8. Armazenamento adequado para alimentos e medicamentos;

9. Programa de esterilização, evitando o nascimento de ninhadas no abrigo;

10. Programa de adoção permanente;

11. Eutanásia, se necessária, realizada com o uso de barbitúricos;

12. Socialização dos animais, incluindo enriquecimento ambiental e interação positiva e frequente com pessoas e outros animais;

13. Recreação e exercícios diários, através de passeios ou soltura, individuais ou coletivos em áreas especiais;

14. Capacitação do pessoal para manejo etológico e cuidados básicos com os animais.

15. Cuidados com os funcionários – provisão de instalações para suas necessidades básicas.

FONTES CONSULTADAS:

  • Calderón, Néstor. Bienestar Animal. Revista de la Academia Colombiana de Ciencias Veterinarias, Vol. 1 No.2, Marzo de 2010, páginas 48:57.
  • Gwynne-Jones, Olwen. Modern Kennel Management. United Sates : Popular Dogs Publishing Co.Ltd., 1953.
  • HSUS – Guidelines for Animal Shelter Policies.
  • Key, David. Cattery Design. The essential guide to creating your perfect cattery. United kingdom: Cambridge University Press, 2006.
  • Key, David. Kennel Design. The essential guide to creating your perfect kennels. United Kingdom: Cambridge University Press, 2008.
  • Miller, Lila & Zawistowski, Stephen. Shelter Medicine for Veterinarians and Staff. United Kingdom: Blackwell Publishing, 2004.
  • Miller, Lila & Hurley, Kate. Infectious Disease Management in Animal Shelter. United Sates : Wiley-Blackwell, 2009.
  • RSPCA – Guidelines for the design and management of animal shelters.
  • Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo – Programa de controle de populações de cães e gatos do Estado de São Paulo – BEPA, volume 6, suplemento 7, maio de 2009.
  • State of Victoria – Austrália – Code of Practice for the management of dogs and cats in shelters and pounds.
  • WSPA – Alternativas para abrigos de animais.
  • WSPA/Universidade de Bristol – CD “Bem-estar Animal”
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